Apresentação

Versão βeta Literatura: crítica, teoria e tradução

por Cláudio Eufrausino

Fotografia original: Fishy da fish 4 by Alfonso Diaz. Arte: Karla Vidal

Talvez a forma mais consagrada de se conceber o livro seja tratando-o como um mar onde o rio do conhecimento deságua com suas diferentes fozes.  Conclusão, fechamento: a imagem do livro, sob tal prisma, equivale à da morte súbita: à de uma pena sumária. Assim como Atlas, o livro traria o peso do mundo sobre a cacunda (e ainda hoje se espera de Atlas que ele se sinta orgulhoso da sentença que lhe foi outorgada).

A expectativa é a de que, antes de se tornar livro, os discursos estejam purgados de todo erro, revirginados. Sem nos darmos conta, nossa ambição é que o livro seja um encontro romântico entre o Gênesis e o Apocalipse.

Isso pode até chegar a acontecer, numa dimensão que não nos foi apresentada. Mas, nestas humildes paragens que habitamos, o livro, bem como o espetáculo de teatro, por mais perfeito que seja, não deixa de ser um ensaio para o espetáculo do dia seguinte. E é bom que seja assim, para que cada novo dia tenha com o que se preocupar e o sol e a lua não percam a poesia e se rendam ao vício comodista de confundir o brilho eterno com a preguiçosa opacidade da mesmice.

Estamos acostumados a escrever artigos acadêmicos e submetê-los à avaliação de pareceristas, que julgarão o percurso de nossas ideias e darão um veredicto que, não raro, não terá direito a apelação por parte do réu, ou melhor dizendo, do autor…

A proposta deste livro/e-book é seguir na contra-mão e colocar, lado a lado, as duas formas de livro que a história tem insistido em colocar como irreconciliavelmente opostas: a obra aberta e a obra fechada. O leitor terá acesso a uma versão fechada da obra, mas, paralelamente, haverá um espaço no qual o leitor poderá exercer o papel de parecerista, independentemente de ser um acadêmico.

Neste espaço, o leitor poderá escolher passagens que acha que mereçam ser reescritas (total ou parcialmente), desde que tenha uma alternativa a propor. Certamente, haverá um limite de caracteres para a reescritura proposta pelos leitores, pois, não é objetivo desta publicação perpetuar o mito de que interatividade = #ad libitum (escrever o que der na telha). A interação, sendo um agir que pressupõe a reciprocidade, não pode se resumir à farsa da liberdade ilimitada.

Haverá também espaço para que o leitor-parecerista possa sugerir referências de leitura e autores com os quais os autores dos ensaios possam dialogar.

A proposta é que cada ensaio fique durante três meses aberto a esta interferência dos leitores. Depois disso, os autores terão um mês para analisar as sugestões e reformular seus textos. Ao “fim” do processo, espera-se que haja matéria-prima o suficiente para ser publicado um novo livro.

Portanto, este livro é uma versão β, visto que oscila entre o fechamento e a abertura. Em todo caso, o objetivo é fugir da tentação de se chegar à palavra final, seja ela a do autor, de pareceristas especializados ou dos leitores. Tentamos desenhar uma estrutura em que estas posições possam se intercambiar. Assim, o autor também poderá ser leitor e também parecerista. A mesma coisa deve ocorrer com o leitor.

No mais, resta falar sobre os ensaios do Versão β. O livro é dividido em quatro seções, abordando as principais tendências nos estudos de Literatura.  São treze ensaios escritos por bacharéis, mestrandos e doutorandos da área de Letras.

A seção Literatura e Sociedade, é formada por quatro ensaios. No texto de Alberes Santos, uma análise da representação da guerra nas literaturas africanas de língua portuguesa. Frederico Machado contribui para o reavivamento dos estudos de Martins Pena, analisando como o escritor, transitando na sutil fronteira entre o trágico e o cômico, dá contornos a sua crítica social. Kleyton Pereira investiga como a obra de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, lida com a questão “O que é o ser moderno?”, trazendo como pano de fundo para responder a essa pergunta uma reflexão sobre o relacionamento entre historicidade e poética. Thiago Corrêa analisa o Jardim do Diabo, e reflete sobre como este que é o primeiro romance de Luis Fernando Veríssimo se insere na lógica pós-modernista, que tenta conciliar a expressividade artística com o mercado, a indústria de entretenimento e a sociedade de consumo.

Outra seção do Versão β é dedicada ao diálogo direto com teorias da Literatura. É composta por dois ensaios. No texto de Cláudio Eufrausino, o autor discute o estatuto do raro na Literatura e como este conceito é metaforicamente representado em textos literários. Glauco Cazé, com base em teorias sobre a relação entre o Épico e o Romance, a exemplo dos estudos de Lukács, reflete sobre como a literatura lida com a tarefa de reaproximar o eu e o outro nos abismos internos da existência.

A seção Estudos Comparados traz três ensaios. Anuska Vaz faz uma comparação entre o modo como o sentimento da amizade é expresso através de textos clássicos da literatura e da filosofia e o modo como se manifesta nas plataformas virtuais de interação, isto é, nas redes sociais. Mahely Barros, tomando como ponto de partida a imagem do jogo de xadrez, dá um importante lance no jogo da reflexão literária e utiliza como peças os escritos de Borges, Montaigne e a obra cinematográfica de Ingmar Bergman. Fernando Oliveira investiga como a Divina Comédia, de Dante Aliguieri, encontra espaço para ecoar no labirinto de Avalovara, clássico de Osman Lins, com destaque para a comparação entre a personagem Beatriz e as personagens femininas de Lins.

Na seção Alteridades, dois ensaios analisam as cisões do eu na relação conflituosa entre biografia e ficção. Carla Araújo analisa como Ítalo Calvino, por meio de um inusitado diálogo entre neorrealismo e fábula, aproxima autobiografia e autoficção, subvertendo os moldes de ambos os gêneros. Ao analisar o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Jessica Oliveira reflete sobre o processo de fusão do sujeito com a palavra e sobre como Pessoa tentou dar conta de sua proposta de escrever uma autobiografia sem fatos.

Por “fim”, a seção Devires Tradutológicos vem com dois ensaios. Flávia Adolfo analisa as implicações teóricas e técnicas envolvidas na tradução de textos de humor. Para isso, considera como o tradutor, transitando entre a literalidade e outras modalidades de interpretação, procura manter o estilo e a intenção do texto de origem. Gustavo Táriba, num texto que dialoga com o ensaio e a crônica, reflete sobre a atividade do tradutor, emprestando vida e dinamismo à tradução, e refletindo sobre como este trabalho combina técnica, interesses e sensibilidade.

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