Capítulo 6 – Escritos de guerra em literaturas africanas de língua portuguesa: representação bélica e seus efeitos na sociedade. Por Alberes Santos

Alberes Santos

Escritos de guerra em literaturas africanas de língua portuguesa: representação bélica e seus efeitos na sociedade

Considerada como uma das ações mais reprováveis nos seres humanos, a guerra desperta sentimentos de ira, de ódio, mas também de amor à pátria. Caracteriza-se por ser contraditória e por sempre estar aliada ao poder humano.  Por meio dela, no decorrer da civilização humana, os homens fundaram reinos, cidades e Estados, espoliaram outros povos e até os seus compatriotas para o enriquecimento, cometeram traições, assassinaram inocentes e pessoas contrárias à opressão vivida na guerra. Todos esses objetivos atestam que guerrear é um bom recurso para os poderosos alcançarem os seus desejos. No entanto, atualmente, ela é refutada pela sociedade, que prioriza mais o recurso da diplomacia e do diálogo para a resolução dos conflitos civis e das brigas entre os países.

A temática da guerra sempre se interligou com a produção literária. Muitos livros a ambientam como pano de fundo das tramas ou dão grande relevo à guerra para a compreensão da condição sócio-histórica de um determinado período. Dessa forma, o presente ensaio objetiva a representação da guerra e de seus efeitos na sociedade por meio do estudo comparativo das obras literárias Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa (2009) e A Terra Sonâmbula de Mia Couto (1993).

Para tal empreendimento, efetuaremos o seguinte percurso: primeiramente, faremos uma discussão teórica sobre Literatura Comparada e sua ligação com os Estudos Culturais, atentando para os diversos fins, metodologias e concepções que abarcam o estudo do comparativismo. Numa segunda etapa, refletiremos a respeito de nação e de identidade, atentando para as formas diferentes ou similares como os teóricos pensam sobre esses dois assuntos e, por fim, a reformulação da imagem da guerra e de seus efeitos na sociedade nas obras aqui analisadas por meio do estudo da comparação.

Introdução

Comparar literaturas não é um fenômeno atual. O estudo comparativo advém dos gregos e se fortalece cada vez mais nos centros acadêmicos e de pesquisas da universidade.  Assim, constata-se que, na Antiguidade, já havia estudiosos como Berossos ou Filon de Biblos, peritos em duas literaturas, que desenvolviam estudos comparativos e escreviam em duas línguas.  Na Roma Clássica, destacaram-se os autores Macrobius e Aulus Gellius, que estabeleceram vários paralelos entre os poetas romenos e gregos. Posteriormente, a comparação entre literaturas tornou-se moda na Renascença, visto que os comparativistas seguiam os preceitos de imitação dos estudos greco-latinos; sendo assim instituído fortemente o estudo das influências. No século XVII, ela foi marcada por dois fatos importantes: a Querela dos Antigos e Modernos e a expansão dos estudos comparativos pelos autores e críticos que adotaram a perspectiva cosmopolita. O cenário mundial do século XIX prezou a racionalidade, o empirismo e o método indutivo, os quais influenciaram, por um longo período, o caráter cientificista do estudo comparativo. É o tempo em que a expansão do cosmopolitismo e do interesse por outras culturas fora do eixo europeu se acentuou. É o tempo também em que as línguas despertaram a curiosidade da Lingüística Comparada para serem objeto de estudo. Diante desses acontecimentos, a Literatura Comparada começou a se formar e se instituir como uma ciência sistematizada, originando cursos e estudos sobre o assunto. Foi na França, onde sugiram as primeiras cátedras de Literatura Comparada, em 1887, na Universidade de Lyon e, mais tarde, criou-se a cátedra na Sobornne, em 1910. Nessas universidades, destacaram-se os estudiosos: Joseph Texte, Fernand Baldensperger e J. M. Carré. Depois, propagou-se pelas universidades estrangeiras, que ora aprimoraram a linha clássica francesa do estudo comparativista, ora a mantiveram piamente. Como não é o objetivo desse ensaio descrever como foram as origens da Literatura Comparada em outros países, discutiremos mais tarde sobre as principais escolas comparativistas que reviram os pressupostos teóricos da escola clássica francesa.

Indiscutivelmente, a literatura comparada não é apenas o confronto de duas obras literárias para caça de suas similitudes e diferenças. Pensá-la dessa forma é uma visão simplista e redutora da diversidade de métodos de análise, de correntes de estudos comparativistas que abarca.  Ela tem o escopo de investigar a relação e /ou diálogos entre dois autores ou mais ou dos movimentos literários num mesmo país ou diferentes, atentando para as formas, os conteúdos e os estilos convergentes ou divergentes entre si, como também para a relação intertextual entre as linguagens. Portanto, não há um procedimento para fazer a comparação, assim como não existe uma “literatura comparada” para ser seguida.  Dessa maneira, o ato de comparar é “um procedimento que faz parte da estrutura de um pensamento do homem e da organização da cultura” (CARVALHAL, 1999, p.6). Desse modo, comparar não é exclusividade da Literatura Comparada, mas um ato que integra o saber humano e nos ajuda na categorização do conhecimento adquirido seja pela ciência ou pela tradição, relativo também ao nosso dia a dia.

Dentre os vários confrontos teóricos dos pensadores da Literatura Comparada, ficou conhecida a dissensão entre os grupos comparativistas, de linha clássica francesa, e os modernos, liderados pelos Renee Welek e Etiemble para definirem a distinção da terminologia da literatura comparada com relação à literatura geral. Para os primeiros, a literatura geral era considerada como uma área ampla, a qual englobava os estudos comparados. Por outro lado, os segundos não viam nem instituíram diferenças entre elas.

No entanto, Paul Van Tieghem assinala que a diferença entre os termos acima citados está na finalidade de estudo, pois a literatura comparada se preocupa com os estudos das relações binárias de estudos entre autores, obras, obras e autores literários. Já a Literatura geral prioriza a convergência de um fato comum a várias literaturas. Assim, ele pensa o estudo comparativista numa tripartição graduada numa seguinte ordem: a Literatura Nacional, onde verificaremos o lugar da obra literária de um país num determinado período histórico; a Literatura Comparada, na qual analisa a influência de um(a) autor(a)/ obra, de forma unívoca, sobre outro(a) e; por fim, a Literatura geral, que objetiva o estudo dos fatos comuns nas obras que repassaram a influência a outras, assim como nas influenciadas.

Inicialmente, a Literatura Comparada bifurcou-se em duas escolas principais que orientaram os estudos comparativos e tiveram um intenso debate teórico entre estas correntes: a escola francesa e a escola americana. De acordo com a primeira, a análise comparativa deveria estudar as relações causais, conservando uma vinculação bastante íntima com a historiografia literária. Ressalta-se que a denominação escola francesa não se restringe geograficamente aos estudiosos franceses do Comparativismo, abrangendo todos que comungavam da doutrina do estudo das influências entre obras numa perspectiva nacionalista. A escola americana possuía caráter eclético, permitindo o estudo de relações da literatura com outras artes ou áreas do saber, assim como o estudo comparativo de obras ou de autores no interior de uma literatura nacional, estando interligada com o New Criticism – vertente teórica da Teoria Literária, surgida nos Estados Unidos durante a década de 30 do século XX. Essa linha de pensamento, na maioria das vezes, optava por um estudo com viés paralelístico. Uma das vozes mais dissonantes e contrárias ao grupo francês da escola clássica do comparativismo foi o americano Renne Wellek. Este criticou, de forma incisiva, o estudo das influências e das fontes literárias, que, movidos por um caráter mecanicista, não levavam em consideração as nuances modificadoras adquiridas pela obra receptora de influência, além do fato de a própria obra influenciadora tornar-se uma matriz ressignificada, com outra configuração:

Estudar mecanicamente as fontes e as influências, as relações de fato, a fortuna, a reputação ou  a acolhida reservada a um escritor ou a uma obra  e as causas e  consequências deterministas das produções literárias , sem nunca se ter preocupado  em desvendar  o que tais relações  supõem ou poderiam mostrar no âmbito de um fenômeno literário mais geral, a não ser mostrar o fato de que um escritor leu  ou conheceu outro escritor. O que não tem sentido para quem concebe as obras de arte não como  somas de fontes e influências, mas como conjuntos  em que a matéria-prima vinda de outro lugar deixa de ser matéria inerte e passa a ser assimilada numa nova estrutura. (Apud, NITRINI,  2009, p.34).

Nos anos 60 do século XX, surge a escola comparativista, do leste europeu, que veio amenizar a bipolarização entre as escolas francesa e americana. Ela ficou desconhecida pelos centros de pesquisas acadêmicas ocidentais devido ao regime político socialista, que cerceou a intercomunicação dos estudiosos do leste europeu com outros teóricos do mundo capitalista.   Saindo do isolacionismo, os comparativistas do Leste Europeu tiveram uma intensa participação no Congresso de Budapeste, em 1962, e fizeram severas críticas à escola americana que, segundo Nieoupakooieva, procurou desnacionalizar as literaturas e restringir os seus estudos comparativistas à investigação de literaturas do mundo capitalista. O escopo dos estudos comparativistas do leste europeu é a percepção de que a literatura era um produto da sociedade. Dessa forma, os comparativistas soviéticos simpatizavam com a escola francesa, pois compartilhavam da perspectiva nacionalista.

Uma das personalidades notórias da escola russa foi Zhirmunsky, que percebeu a presença mínima, nos estudos literários da Europa, da influência dos fenômenos sociais na literatura. Ele afirma que a relação entre acontecimentos sociais e literatura não empobrece o estudo comparativo, visto que vai além do determinismo que apenas aponta e soma as condições históricas que influenciaram e moldaram o discurso diegético de uma obra literária:

A ideia segundo a qual condições históricas repercurtem sobre fenômenos literários e sociais não se confunde com o determinismo mecânico e rígido e não exclui os caminhos diversos e individuais do desenvolvimento da literatura provocado pelo jogo complexo das causas e condições de desenvolvimento, grandes  ou pequenas, nacionais e individuais,  literárias e históricas.(Apud NITRINI,  2009, p.50)

Entre os anos 60 e o começo dos anos 70, inseriu-se no cenário da literatura comparada a análise do status da literatura da América Latina, região geográfica com realidades sócio-históricas distintas e dotadas de grande teor de complexidade. No Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada, realizado em Nova York no ano de 1973, aparecem estudiosos renomados como Angel Rama, Ana Pizarro e Antonio Candido. Na visão de Antônio Candido, as literaturas latino-americanas se formaram a partir do embate do realismo com a fantasia. É a partir da recepção e/ou assimilação das técnicas e concepções literárias europeias que os escritores latino-americanos exploravam temáticas, assuntos e recursos ainda não vistos na produção literária mundial. Este ponto de vista possibilitou desvincular nossa literatura de uma imagem de inferioridade, embora os países da America Latina estivessem sob o domínio do imperialismo político naquela época.

Literatura Comparada e Estudos Culturais

Originalmente, os Estudos Culturais nasceram, na Inglaterra, no Centre for Contemporay Cultural Studies (CCCS) da Universidade de Birmingham, idealizados pelo professor Richard Hoggart. Era o ano de 1957. Os estudiosos culturalistas investigam como a sociedade e as pessoas se reconstroem subjetivamente a partir da descrição, abstração e reconstrução de fatos concretos. De caráter interdisciplinar, os Estudos Culturais proporcionam a agregação de várias disciplinas de diferentes áreas do saber, propiciando o estudo de um traço cultural específico de nossa sociedade. Dessa forma, mantiveram contato com o movimento feminista, que pôs em xeque as relações de gênero na sociedade e questionou também as formas de poder.

Profundamente influenciados pelo Marxismo, os Estudos Culturais possuem uma defendem a tese de que os processos culturais possuem uma relação íntima com as formações de classe e a hierarquia na interação social. Aponta-se também que a cultura é vista como uma forma de poder que se instaura pelas lutas sociais. Por fim, os Estudos Culturais se coadunam com as ideias do grande comparativista francês Etiemble, quando refuta a perspectiva nacionalista e o chauvinismo do grupo francês comparativista, liderado por muito tempo pelo catedrático J. Carré da Universidade Sorbonne.  Na sua ótica, as literaturas, independentemente de questões políticas e geográficas, possuem o mesmo valor, reforçando assim a interligação com os Estudos Culturais. Carré também não acreditava nas distinções entre literatura comparada e literatura geral. Para ele, os comparativistas deveriam se preocupar com as trocas simbólicas ocorridas no decorrer da civilização humana, desprezando dessa forma a preponderância de uma obra literária sobre outra no estudo comparativista.

Nação e Identidade

A nação com seus símbolos e suas tradições não necessita de um território reconhecido juridicamente e politicamente para criar representações identitárias, diferindo-se assim de um Estado Nacional. Na visão do estudioso Stuart Hall, o conceito de nação é “[…] uma comunidade simbólica e é isso que explica seu poder para gerar um sentimento de identidade e lealdade.” (2005, p.49).

Opondo-se a essa definição, Homi Bhabha (1998, p. 50) teoriza a nação a partir de  suas margens, atentando-se assim para o cotidiano das  minorias num país, os confrontos entre a tradição e o moderno. Desmascara, assim, a visão homogênea e horizontal de nação que os discursos oficiais veiculados, na nossa sociedade, legitimam com veemência.

Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, atribui um espírito combativo à identidade, percebendo-a como se ela estivesse numa arena, lutando pela sua sobrevivência e pela manutenção de sua singularidade. Nesse sentido, argumenta Bauman: “A identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa resoluta a ser devorado” (2005, p.83).

Para Terry Eagleton, a identidade é a fonte de toda ideologia. Ela gera uma homogeneização de todos os seres na nossa consciência e nos faz acreditar que somos todos idênticos, colocando uma venda nos nossos olhos para as diferenças:

A identidade é, pois, aos olhos de Adorno, “a forma primeva” de toda ideologia. Nossa consciência reificada reflete um mundo de objetos cristalizados em seu ser monotonamente idêntico e, ao ligar-nos assim àquilo, que é puramente “dado”, cega-nos para a verdade de que “o que é, é mais do que é”. (2002, p.50)

Sob a ótica de Stuart Hall (p.70, 2005), as nossas identidades nacionais são forjadas antes de nascermos e nos dão uma falsa percepção que nós fomos nascidos com elas.  Entretanto, constituem-se por meio de uma profunda mudança no interior de sua representação.  No mundo pós- moderno, as identidades modernas “[…] estão sendo “desenhadas”, isto é, deslocadas ou fragmentadas.” (HALL, 2005, p.8). Dessa forma, o sujeito de nossa época não possui uma identidade fixa como pensavam os estudiosos iluministas do século XVIII, mas está sempre se (re)modelando e se caracteriza pelo descentramento. Assim, refuta-se a visão da identidade como um conjunto puro e autêntico de características comuns a todos os integrantes de uma comunidade.

Ancorado pelas ideias de Deleuze e Guatari, esboçadas no livro Mil Platôs, o escritor e teórico caribenho Édouard Glissant (2005) compartilha da ideia de que há dois tipos de pensamento: de raiz e de rizoma. O pensamento raiz seria o que extermina todas as ramificações, ou melhor, tudo que esteja ao redor, enquanto, o pensamento rizoma caracteriza-se por ser uma raiz que congrega ou congraça com outras raízes, sendo destituído de sectarismo. Então, a identidade como rizoma seria um encontro/diálogo em que o estrangeiro é visto não de forma preconceituosa, mas benéfica, contribuindo para a formação do outro, que herda e mescla diferentes essências numa troca entre diferentes identidades, promovendo assim tanto unidade quanto diversidade no seu interior.

Logo, identidade e nação são terrenos escorregadios, onde os estudiosos devem prestar atenção ao analisar os processos de formulação e reformulação das imagens que são atribuídas na representação de uma determinada comunidade, para não fazer (re)leituras equivocadas e rasas. Identidade e nação se irmanam. No entanto, podem (des)velar ou marginalizar a diferença dos grupos que integram o corpo social, diferença que é retrabalhada nas produções literárias de nossa contemporaneidade.

A reformulação da guerra na construção da narrativa literária e seus efeitos na sociedade

A guerra sempre foi uma temática abundante na Literatura e, desde as primeiras obras literárias, ela aparece ora como pano de fundo, ora dotada de grande significação para a diegese de uma narrativa. Inúmeros livros da literatura mundial retrataram, em seus enredos, a guerra e seus efeitos na sociedade. Se os listássemos, teríamos que fazer uma categorização que não chegaria ao fim. Desta forma, não destacaremos as obras literárias para não cometermos injustiça com certos autores.

Nessa esteira de escritores, encontra-se o autor, contista, biólogo, médico, jornalista, Mia Couto, que aborda, em Terra Sonâmbula (1993), a errância e/ou diáspora do protagonista Kindzu, a partir de suas memórias – escritas no caderno – e de outros personagens como Farida e Thuair que sofrem os horrores da guerra civil moçambicana. Esta se iniciou após a libertação do jugo opressor do poder colonial e ditatorial do governo português de Salazar em 25 de julho de 1975.

Dois grupos políticos se confrontaram por diversas décadas para chefiar o país. Um grupo denominado Frente de Libertação Nacional de Moçambique (Frelimo) que agregou artistas e descendentes de portugueses para pôr fim ao sistema opressivo colonial português. O outro grupo chamado de Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) surgiu como oposição ao monopólio de gerenciamento da Frelimo, pouco tempo depois da independência, contando com a participação de antigos colonizadores portugueses e de uma parcela moçambicana, assim como recebendo o apoio militar da Rodésia e da África do Sul. O conflito se deu pelo uso da força militar, que gerou muitas mortes e atrocidades para a população civil de Moçambique durante várias décadas. No entanto, esses grupos políticos selaram um acordo de paz, quando ficou decidido, em 1994, o fim da existência de um único partido para gerir o país. A partir disso, o país teve eleições democráticas com a participação de vários partidos para postularem cargos políticos na condução do país.

Os escritos sobre a guerra também aparecem no autor, jornalista, agrônomo, José Eduardo Agualusa, no livro Estação das Chuvas que narra a vida da historiadora e poeta angolana Lídia Ferreira, a partir de entrevistas referentes à situação da política opressora de Portugal sobre Angola e aos intensos embates entre as forças políticas do país pelo poder, após a Independência de Portugal.

A soberania angolana foi conquistada graças à deposição da ditadura salazarista pelos portugueses no ano de 1974, que proporcionou a reivindicação de sua autonomia política por meio da sublevação. Dentre os movimentos anticolonialistas estão: Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que, ancorado nas ideias marxista-leninistas, iniciou as lutas pela defesa da soberania do país, desde 1961, tendo como líder o escritor Agostinho Neto; A União Nacional para a Independência Total para a Angola (UNITA); a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).

Depois da independência de Portugal, Agostinho Neto tornou-se o primeiro presidente do país, em 11 de novembro de 1975, e afastou os outros movimentos políticos do poder com a ajuda dos cubanos, permitindo apenas o seu partido, o MPLA, governar o país. Esse monopólio do poder foi questionado pelas outras frentes políticas do país através da luta armada que perdurou por décadas e acarretou consequências para o povo angolano como: mortes, estupros, desaparecimentos de pessoas, torturas, dentre outras atrocidades.

Tanto os grupos de oposição como o da situação tiveram apoio internacional.  O UNITA recebeu ajuda financeira e militar dos Estados Unidos e o MPLA, de Cuba. Esse conflito só chegou ao fim no ano de 1991 por meio de um armistício entre essas duas frentes políticas. Mas, no ano seguinte, ocorreram eleições para todos os cargos políticos do país, que foram ganhas pelas autoridades políticas do MPLA. Dessa forma, o UNITA contestou as eleições e partiu para o confronto bélico contra o MPLA até 1996, quando negociaram um tratado de paz entre os líderes José Eduardo Santos (MPLA) e Jonas Savimbi (UNITA). Em 1997, foi constituído o Governo de Unidade e Reconciliação Nacional que objetivou a união do MPLA e do UNITA para seus integrantes governarem o país. Mesmo com essa fusão de partidos, notam-se ainda embates do UNITA e do MPLA no norte de Angola, pois muitos partidários dessas frentes políticas discordaram dessa interligação e aproximação política.

A ficção é um fingimento, sendo, simultaneamente, desarraigada ou ancorada na realidade. Ela vai além do que é descrito e palpável no mundo concreto no qual estamos inseridos. Embora possua contatos com a realidade, não exprime um acontecimento tal como ocorreu; representa apenas uma (re)semantização ou (re)processamento do real com uma nova ótica, que,  na maioria das vezes, depende do mundo exterior da  obra literária para  gerar significação.  No processo de ficcionalização, o escritor esvazia o signo que revela e denota o real para gerar outra forma de significado – que pode ser extraído ou não –, através da  ligação  com o mundo real.

No ponto de vista de Umberto Eco, a realidade e a ficção possuem condições  do mundo real que se relativizam entre si, ainda que  seus mundos arquitetados  sejam diferentes, com suas visões díspares sobre a vida, o mundo  e as pessoas. Independente de qual seja a modalidade do texto literário, a composição do mundo ficcional se apoia na realidade:

Isso significa que os mundos ficcionais são parasitas do mundo real. Não existe nenhuma regra relativa ao número de elementos ficcionais aceitáveis  numa obra. E, com efeito, aqui há uma enorme variedade de formas como a fábula, por exemplo, a todo instante nos levam a aceitar correções em nosso conhecimento do mundo real. No entanto, devemos entender que tudo aquilo que o texto não diferencia explicitamente do que existe no mundo real corresponde às leis e condições do mundo real. (1994, p.89).

Na narrativa de Terra Sonâmbula, Mia Couto transfigura a guerra, por meio de metáforas que expressam, de forma lírica, o aspecto pesado, sombrio de um país devastado. Deste modo, essa prosa lírica encanta o leitor com a errância dos sobreviventes que efetuam uma caminhada sem fim no território de seu país para fugir dos sofrimentos da guerra. Isso sem deixar de fazer uma denúncia do caos social do país.

Agualusa explora, por meio de um entrecruzamento de história, realidade e ficção, a situação política de Angola, desde a sua condição de colônia portuguesa até aos confrontos armados e ideológicos das frentes políticas pelo poder do país, após a Independência de Portugal. Para alcançar este intento, o escritor angolano partiu da ficcionalização da biografia da historiadora, poeta e militante política Lídia Ferreira, por meio de citações de jornais e de entrevistas com esta artista e personalidades angolanas de diversas instâncias sociais envolvidas nas brigas pelo poder durante a fase pós-colonial, o que dá um caráter polifônico à narrativa. Na maioria das vezes, realidade e ficção parecem ser inseparáveis, devido à forte ilusão de amálgama, forjada no discurso diegético, que não abusa do retrato cruel da guerra civil angolana. Questiona-se se os fatos narrados são puramente ficcionais ou reais.

Segundo Genette (1972, p.50), a diegese vincula-se aos conceitos de narratologia, de estudos literários, dramatúrgicos e de cinema. Diz  respeito à configuração ficcional de uma narrativa. Ela é a  realidade  própria  da narrativa (o mundo ficcional), sendo   uma realidade externa para quem lê, desvinculada do  mundo real.

Na visão de Silva (1986 p.719), estritamente ligada à produção literária, a diegese se dá por meio das ações sucessivas de um enredo, ocorridas num contexto espacial e temporal. Além disso, contém as relações estruturais entre as personagens ou destas com os objetos, meios sócio-geográficos, que envolvem aspectos sociológicos, ideológicos e axiológicos e indicam o elemento central da  diegese.  Não só as ações de uma narrativa a compõem, mas também as descrições de estados, de objetos , dos meios geográficos e  sociais.

É inegável que a diegese das narrativas, aqui comparadas, relatam a sucessão de fatos ocorridos numa guerra, num tempo e espaço, com enfoque diferente. Em Mia Couto, ela é retratada a partir da fuga de Kindzu de sua tribo no período pós- colonial, visto que ele desejava ser um naparama para salvar o país das forças opressoras (não determinadas na narrativa) e encontrar o seu irmão desaparecido misteriosamente neste período. Dessa forma, durante a caminhada de Kindzu pelo país devastado pela guerra, o autor contesta as forças dos poderes opressores que cometem atrocidades humanas e afetam psicologicamente as pessoas, assim como destroem o lugar com minas explosivas que tornam a terra cinzenta e sem vida. E faz isto com um discurso desprovido do tom panfletário.

Na narrativa de Jose Eduardo Agualusa, ele faz uma cobertura da vida da protagonista Lídia e da razão desta mulher defender com amor e coragem o seu país, dos grupos políticos opressores numa Angola em estado bélico. Desde o nascimento até o seu envelhecimento, a vida de Lídia e de sua família se mistura com a situação política e social de Angola. Nesse período, o país e vive momentos duros, tendo mortes, prisões, exílios, intenso debate ideológico entre os grupos políticos e traições de companheiros envolvidos na luta por um país soberanamente democrático, tanto anteriormente à opressão de Portugal como após a libertação do jugo deste país. Nessa fase histórica angolana, os poderes locais junto com internacionais duelam entre si para gerir a política de Angola. Na diegese da narrativa de Agualusa, o autor ambienta personagens conscientes politicamente para lutar por uma sociedade pacífica e democrática, diferentemente da narrativa de Mia Couto, em que os personagens não têm uma consciência de classe nem de ideias para acabar com o estado bélico do seu país.

Ambas as obras discutem a questão da identidade diferentemente nas narrativas de seus livros nos movimentos duros da guerra. Na narrativa de Mia Couto, fica explícita a xenofobia em Moçambique. Tomamos como exemplo, o caso do comerciante indiano Surendra Vala que era tido como um mal que ia desagregar a cultura moçambicana na tribo de Kindzu. A personagem vivia deslocada das ligações com a terra natal e de suas tradições e só tinha a amizade do menino Kindzu que não o percebia como o outro, devorador da cultura moçambicana, mas como fosse um moçambicano nato:

E ele me passava um pensamento: nós os da costa, éramos habitantes não de um continente, mas de um oceano. Eu e Surendra partilhávamos a mesma pátria: o Indico. E era como se naquele imenso mar se desenrolassem os fios da história, novelos antigos onde nossos sangues se haviam misturado. Eis a razão porque demorávamos na adoração do mar: estavam ali nossos antepassados, flutuando sem fronteiras. Essa era a raiz daquela paixão de me encaseirar no estabelecimento de Surendra Valá – Somos da igual raça, Kindzu: somos índicos!   (COUTO,1993 p.29).

Já no livro Estação das Chuvas, de Jose Eduardo Agualusa, percebe-se um forte nacionalismo, interrogado em diversos momentos da narrativa. Na tentativa de se livrar da opressão da colônia portuguesa, mestiços e filhos da burguesia angolana, na sua maioria, estudaram em universidades de Lisboa e lutaram pela soberania de seu país. A princípio, a luta foi marcada pelo nacionalismo extremo, em que artistas/escritores engajados politicamente na MPLA, como Agostinho Neto, desejavam que toda a produção literária refletisse o espírito nacional e a consciência política do povo moçambicano. Entretanto, após a independência, os escritores não tinham mais a necessidade de fazer literatura arraigada no patriotismo, já que os moçambicanos haviam conquistado a soberania nacional, o que gerou brigas e dissensões entre os grupos literários do país.

Não ficou restrita ao plano artístico-literário a crise do nacionalismo, mas expandiu-se para as questões políticas e da identidade nacional. Alguns artistas contrários ao MPLA discordavam da opinião do nacionalismo radical, pois pessoas estrangeiras possuíam a mesma moçambicanidade de uma pessoa nascida em Moçambique. É tanto que os grupos de resistência ao poder despótico nacionalista do MPLA aceitaram pessoas que não tinham origem moçambicana para ajudarem na retirada do poder das mãos do MPLA.

Nos discursos das narrativas, aqui comparados, observa-se um amor à pátria com graus de intensidade diferentes no estado da guerra civil. Na obra de Agualusa, há o destaque do esforço integral da escritora e historiadora angolana Lídia Ferreira, dentre outras personalidades da sociedade de Moçambique, que puseram em risco a sua vida em prol do fim do sofrimento de seu povo, tendo sido esta mulher retirada de sua casa pelo poder ditatorial do MPLA e não mais sendo encontrada. Em Mia Couto, a personagem Kindzu simboliza ingenuamente o afeto pela pátria, quando deseja ser um naparama (um guerrilheiro). Decide integrar-se ao grupo com a finalidade de acabar com as mortes, desaparecimentos, fomes e errâncias das pessoas das tribos devido à guerra, embora fosse um menino que não acreditasse em diferenças culturais e identitárias entre si e os estrangeiros que habitavam as aldeias no interior do seu país. Mas o seu desejo de entrar nos grupos dos naparamas e de encontrar o seu irmão desaparecido não é realizado, vindo a ser assassinado, em um trem, pelas milícias que governavam o país.

Em ambas as obras literárias, as memórias individuais das personagens referem-se às atrocidades humanas e ao caos social dos confrontos de grupos em disputa pelo poder político. Elas também representam uma memória coletiva que, na diegese das obras, fica arquivada em diferentes suportes, como os cadernos de Kindzu, em Terra Sonâmbula, nos quais é narrada a diasporização e os efeitos da guerra tanto na sociedade moçambicana como na vida pessoal do personagem. Isto ocorre, por exemplo, com relação ao desaparecimento de seu irmão mais novo e à loucura do seu pai. Os cadernos são lidos por Muidinga para Thuair – ambos refugiados da guerra civil; Já entrevistas e citações de jornais ajudam na reconstrução da situação política de Angola desde a era colonial até os dias de embates dos grupos políticos durante a fase pós-colonial, centrando-se na vida da escritora angolana Lídia Ferreira do Carmo, que, na narrativa de Estação das Chuvas, some misteriosamente.

Distintamente, as obras aqui analisadas e relacionadas procuram retratar, na vida das pessoas, o estado bélico e repressivo do momento político das sociedades representadas – quando estas pessoas não têm forças para lutar contra a opressão – além de retratar a vida de outras pessoas que formam grupos de oposição para restaurar a paz.
A primeira situação refere-se à narrativa de Mia Couto que optou pelo retrato da diáspora dos personagens saídos de suas tribos do norte do país e que vagueiam sem rumo para fugir da guerra. Mia Couto as retrata, como se fossem zumbis, andando sem destino e famintas numa terra destroçada pelo uso das bombas e utilizando frágeis jangadas para navegar em busca de um lugar que as protegesse da guerra. Sem consciência política para lutar contra o poder opressor, as pessoas preferem se afugentar do caos a combater.

A segunda situação, referente ao enredo da obra de José Agualusa, mostra uma sociedade angolana com forte presença do cosmopolitismo e que conseguiu combater grupos de oposição ao sistema político colonial de opressão português e das forças conservadoras que chegaram ao poder, depois da conquista da independência de Portugal, o que foi feito por meio da criação de grupos de resistências, liderado por civis e artistas. Muitos desses opositores tiveram prisões decretadas e receberam torturas corporais e psicológicas além de terem sido exilados, como foi o caso de Lídia Ferreira, a protagonista do livro. Mesmo exilada, esta artista não se esqueceu do seu povo e liderou ações conjuntas com seus amigos e compatriotas exilados em Lisboa e com os que permaneceram em Angola, com o objetivo de acabar com a carnificina e a supressão dos direitos civis. Para Said, “[…] o exílio baseia-se na existência do amor pela terra natal e nos laços que nos ligam a ela – o que é verdade para todo exílio não é a perda da pátria e do amor à pátria, mas que a perda da pátria é inerente à própria existência de ambos” (2003 p.48). Dessa forma, o exílio reforçou em Lídia o amor à terra natal, pois ela se dedicou integralmente e se esforçou para a conquista da soberania política do seu país, ainda que ela estivesse sentida por estar num país estrangeiro, longe das tradições e valores identitários de sua terra natal.

Enfim, a análise da construção narrativa literária da guerra e de seus efeitos na sociedade possibilitou a relação de obras literárias de dois países dotados de realidades complexas e distintas que foram ficcionalizadas por técnicas e concepções diferentes, assim como a ressignificação da temática do estado bélico numa realidade moldada pelo discurso da diegese.

Considerações finais

Conclui-se que, neste estudo, o ato de comparar não se caracterizou pela convenção mecânica de caça às influências que uma obra considerada maior irradia sobre outra, que a recebe passivamente na sua composição temática. No entanto, procurou-se investigar a relação e/ou diálogo. De acordo com as ideias de Etiemble, em seu ensaio Crise da Literatura Comparada: “a literatura comparada deve estudar não somente as relações entre as diferentes literaturas da época moderna e contemporânea, mas, no seu conjunto, a história dessas relações, devendo voltar ao passado mais antigo” ( Apud COUTINHO, 2011 p.212). Dessa forma, recusou-se todo o chauvinismo típico do estudo clássico comparativista da escola francesa, que perdura até hoje.
Por fim, aliado aos Estudos Culturais, o estudo comparativo procurou mostrar – a partir da ressignificação da temática da guerra no discurso da diegese das obras analisadas – as questões da identidade nacionais, sob uma perspectiva crítica, de uma sociedade que vive em estado bélico. Na narrativa do autor moçambicano Mia Couto, a crítica ao nacionalismo é mais acentuada do que na narrativa de José Eduardo Agualusa. Somado a isso, reportamo-nos também às consequências negativas da guerra que apavoram a população do país e ao engajamento das artes com a realidade, de forma desprovida do tom panfletário.

Referências

AGUALUSA, José Eduardo. Estação das Chuvas. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010.
BAUMAN, Zygmunt. Identidade Entrevista a Benedetto Vecchi Trad.     Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
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CARVALHAL, Tania Franco. Literatura Comparada. 4.ed. São Paulo: Ática, 1999.
COUTINHO, Eduardo F.; CARVALHAL, Tania Franco. Literatura Comparada – Textos  fundadores-Rio de  Janeiro: Rocco, 2011.
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COUTO, Mia.  Terra Sonâmbula. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1993.
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HERNANDEZ, Leila M. G. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005.
NITRINI, Sandra. Literatura Comparada. São Paulo: Edusp, 2009.
SAID, Edward W. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SILVA, Vitor Manuel de Aguiar e. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1986.
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