Capítulo 3 – Amizade: variações e permanência. Por Anuska Vaz

Anuska Vaz

Amizade: variações e permanência

It’s safer not to look around
I can’t hide my feelings from you now
There’s too much love to go around these days

You say I’ve got another face
That’s not a fault of mine these days
I’m honest, brutal and afraid of you.

Belle & Sebastian – “There’s Too Much Love”

I

O caráter instável atribuído aos sentimentos atualmente, não é bem uma característica dos nossos dias. O que em tempos anteriores era definido de maneira estanque como, por exemplo, amor, amizade, gratidão, são vistos hoje como vínculos passiveis de coexistência: entretanto, tais características já podem ser encontradas em textos clássicos.

Principiando por Aristóteles em sua Ética a Nicômaco (Livros VIII e IX), o amor nos é apresentado como um sentimento quase absoluto, mas que ganha suaves nuances de acordo com certas características apresentadas. A “divisão” – não sejamos pretensiosos, muito menos esqueçamos a idéia de volubilidade – aparece melhor esquematizada no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville – que é uma releitura d’O Banquete, de Platão –, e se pauta em três tópicos básicos: Eros, Philia e Ágape. O primeiro baseia o amor na falta, isto é, o amor como necessidade do outro, que resulta em inevitável sofrimento; o segundo apresenta o amor pelo vínculo espiritual, pela afinidade, pela simples alegria daquele outro alguém existir; por fim, o terceiro é um amor incondicional, que não necessita de vínculos de conhecimento ou afetivos, relacionado a um compromisso entre os seres humanos: a caridade.

Estabelecidas as nuances, Aristóteles também demonstra interesse em deixar claras as condições sob as quais uma verdadeira amizade se pauta: entre homens bons, isto é, virtuosos – por isso ele estabelece quais seriam as outras causas, menos dignas, do vínculo entre dois amigos:

Sendo a amizade, portanto, dividida nessas espécies, as pessoas inferiores constituirão amizades por prazer ou por utilidade, caso sejam semelhantes nesse respeito, enquanto indivíduos bons serão amigos por causa deles mesmos entre si, uma vez que são semelhantes no ser bons. Estes últimos, portanto, são amigos num sentido absoluto, ao passo que os primeiros o são fortuitamente e mediante sua similaridade com os últimos. (ARISTÓTELES, 2007, p.240).

Os bons constituiriam a amizade por ela mesma, por uma característica intrínseca que se reflete naquele que sente; já as amizades surgidas pelo prazer ou utilidade são passageiras, em razão da finitude daquilo que as insuflou.

Considerado um dos mais importantes tratados sobre a amizade, o livro de Aristóteles, apesar do título demonstrar seu destinatário, é conduzido de forma sóbria, não demonstrando um didatismo preciso, bem ao contrário do que encontramos n’A Amizade, de Cícero. Neste, o tom professoral é bastante maior, em razão principalmente do gênero escolhido, o diálogo, e por ser um velho que reporta a dois jovens as virtudes de tal sentimento, levando em consideração um seu amigo recém-falecido. De sua própria experiência, Lélio discursa sobre um ideal de amizade que, como boa parte dos textos sobre o assunto, colocarão a virtude dos homens como condição sine qua non para tal sentimento.

Fazer e receber advertências é portanto o critério da amizade verdadeira, contanto seja feito com isenção de espírito, sem maldade, e que o outro aceite pacientemente, sem irritar-se: assim devemos nos persuadir de que não há flagelo maior na amizade que a adulação, a bajulação, a baixa complacência. (CÍCERO, 2007, p. 107).

Já Montaigne – saindo expressamente da Antiguidade Clássica para a Renascença – em seu ensaio “Da Amizade” também escreve a partir da perda de seu amigo, Etienne de La Boétie. Entretanto, o tratamento aqui é outro: enquanto Cícero demonstra sua crença na imortalidade da alma e nisso a certeza de que reencontrará o seu amigo, louvando todos os momentos vividos e fazendo disto sua maior homenagem, Montaigne toma o caminho oposto: louva o tempo compartilhado com La Boétie, mas, em contrapartida, demonstra certo desânimo para com a vida, e diz não mais se interessar por nada, visto que parte de si mesmo já não existe. Tanto que, ao final, Montaigne coloca sua amizade acima de tantas outras que se tem conhecimento e critica o que seria a falta de sensibilidade do texto de Cícero, como contraponto do quão notável foi sua experiência.

A nossa [amizade] foi única no gênero e deve-se tão somente a si própria. Não ocorreu em consequência de um fato específico, ou de dois, de três ou de mil; a ela fomos levados por não sei que atração total, a qual em se assenhorando de nossas vontades as impeliu a um impulso simultâneo e irresistível de se perderem uma na outra, de se fundirem em uma só. E digo “perderem-se” porque na verdade essa associação de nossas almas se efetuou sem reserva de espécie alguma; nada tínhamos mais que nos pertencesse pessoalmente, que fosse dele ou meu. (MONTAIGNE, 1972, p. 98).

Recentemente, num diálogo com Osvaldo Ferrari, Jorge Luis Borges fala da amizade de forma leve, citando os clássicos, e – como Aristóteles e Cícero – acreditando ser essa ligação, entre tantas coisas, uma fagulha à criatividade. De certa forma, é possível fazer uma leitura transcendental de Borges, pois ele demonstra a continuidade do amigo perdido nas atitudes daqueles que permaneceram: as idéias podem não ser mais as mesmas, podem não ter sido proferidos pelo primeiro, mas ele é o responsável pela busca e resultados que seus amigos obtiverem.

II

Nos tratados clássicos vemos uma ligação pontual entre duas ou três pessoas, o que baseava essas relações em algo exclusivo e particular. Tudo o que excedesse isso, vemos em Aristóteles, não se trata de amizade, mas de “camaradagem” ou, melhor dizendo, comunidades. Aqui, a princípio, as comunidades seriam grupos se não secretos, de acesso sigiloso e restrito. Elas existiam em razão de uma causa, e somente aqueles que podiam contribuir eram admitidos. Desta forma, os grupos de “camaradagem” na Grécia Antiga, preocupados em relação às questões da polis; as associações surgidas na Idade Média, que guardavam a sete chaves os ainda rústicos modos de produção de seus objetos de trabalho; a Maçonaria na Idade Moderna, que reunia aqueles interessados nas humanidades e nos interesses do Estado.

Até aí, nos deparamos com a ideia de comunidade como grupos fechados que detinham um conhecimento ou um propósito que as unia e justificava a razão de sua reserva. Mas, pensando hoje, uma imagem bastante disseminada pelos filmes americanos e presente também no recente “A Rede Social”, encontramos fraternidades universitárias tradicionais – que em algum momento devem ter tido um papel outro –, mas que agora só funcionam como um status, e suas reuniões não passam de festas (não sabemos ao certo se é somente isso, mas é essa a imagem que o cinema apresenta).

Ainda aqui existe a exclusividade: somente os iniciados podem alcançar outros níveis do grupo. Mas, a condição mudou: comunidade não leva somente em consideração agrupamentos físicos – os grupos virtuais também são chamados de “comunidade”, lembrando o já extinto “Orkut” – extinto pelos usuários, que migraram 99% para o “Facebook”, a maior rede social dos últimos tempos da última semana.

Comunidade então ganhou uma nova faceta: o que antes era para iniciados e de caráter sigiloso, ganhou abertura completa e compartilhamento total de informações. É certo que existem comunidades moderadas, mas, em sua grande maioria, servem como espaço para debate, e dividir é a palavra de ordem: se você quer a ajuda de outra pessoa, como não fazer o mesmo? O que antes era segredo, agora é carta aberta. Mas, para tudo, existe um preço: não são somente os assuntos que se tornam públicos – os usuários também, e na mesma proporção. Sendo assim, os vínculos se tornam menos estáveis, em sua concepção:

A amizade foge à análise, pois oscila entre dois pólos opostos e contraditórios. Um pólo no qual, banalizada, confunde-se com as práticas gerais da sociabilidade, envolvendo tanto grupos quanto indivíduos. Outro em que, exaltada, preserva-se como uma constante universal que, a exemplo do amor, não teria outra história senão a do indivíduo e em seu confronto com o tempo dividiria com ele as ambições e a fragilidade do sentimento. (AYMARD, In: CHARTIER, 1992, p. 458)

III

Assim, seguindo a idéia da comunidade, a amizade também é inserida na mesma situação. O que antes era singularidade e cultivo profundo de uma ou duas pessoas, torna-se pluralidade superficial. Pensemos os tratados clássicos: eles remetem sempre uma pessoa a outra, demonstram quão profundamente elas se conheciam, como se portavam diante de algum fato, aquilo que os apetecia fazer, enfim, situações do cotidiano comuns, claro, mas somente divididas com uma pessoa que valesse a pena: uma pessoa a quem se confiar a vida – em todos os sentidos.

Atualmente a circuntância é outra: as “amizades” não dependem mais exclusivamente do mundo físico, na verdade, parecem muito mais ter necessidade das redes sociais. Primeiro, porque quem não tem um perfil no Facebook – citamos esta rede social porque é a que está em alta no momento, mas não esqueçamos as demais: Orkut, Hi5, Badoo, Twitter, Flickr, MySpace, e assim ad infinitum – é considerado “atrasado” ou “desinformado” – todas as informações e tudo o que será tópico das próximas conversas passa, começa ou ganha dimensão neste espaço. Segundo, quem não tem um perfil no Facebook está realmente excluído, pois tudo ao redor exige a presença das pessoas no meio físico e virtual, criando uma necessidade desnecessária – com o perdão da contradição. Tudo exige uma corrida por essa extrema exposição de si, e não só exposição, como a inescapável curiosidade do outro, como se aquilo se tratasse mesmo da única “máscara” do seu “amigo”. Um dos personagens d’A Rede Social” diz que “privacidade é coisa do passado”. De fato, essa necessidade de exposição é indiscutível, mesmo com todos os alertas dos perigos reais a que estamos sujeitos. Contudo, como afirma Zygmunt Bauman, as pessoas não percebem que essa atitude não se trata menos do que uma coisificação de si: selecionando as melhores fotos, descrevendo os melhores textos ou momentos da vida, é como se não passássemos de produtos e nisso se pautaria nossa auto-promoção, aguardando somente os compradores. Trata-se de uma projeção ideal a que oferecemos e a que recebemos, sem dúvida. O que antes se pautava no conhecimento um do outro pelas virtudes, termina numa simples feira de vaidades. Trata-se, pois, de uma sociedade confessional.

Desde que não se esqueça que o que antes era invisível – a parcela de intimidade, a vida interior de cada pessoa – agora deve ser exposto no palco público (principalmente nas telas de TV, mas também na ribalta literária), vai-se compreender que aqueles que zelam por sua invisibilidade tendem a ser rejeitados, colocados de lado ou considerados suspeitos de um crime. A nudez física, social e psíquica está na ordem do dia. (ENRIQUEZ apud BAUMAN, 2008, p. 9)

Quanto mais atualizações, mais “amigos”. Não sabemos como se apresenta a terminologia no original, em inglês, mas na versão em português do Facebook, quando uma pessoa lhe adiciona, recebemos “uma nova solicitação de amizade”. E, aqueles que já fazem parte dos seus contatos são denominados “amigos”. Antes o Orkut não mostrava sua quantidade de “amigos” e sim de “membros”. Talvez, para dar um ar de familiaridade e intimidade, a mudança do termo. “Membro”, agora, só os que fazem parte das comunidades, e não estão na mesma lista de contatos diretos. A questão da nomenclatura pode parecer trivial, mas, pensando bem, percebemos que uma afinidade inexistente fora da tela pode ganhar outras dimensões a começar por isto, tão simples, mas que deve despertar em nosso cérebro outro tipo de atitude ou reconhecimento.

A amizade em si, não mudou. Porém não é pensada mais em tão altos termos quanto a perfeição advinda das virtudes. Ainda se trata de um sentimento pautado entre algumas poucas pessoas, que exige um comprometimento – ou, melhor, uma atenção – para com situações e vivências cotidianas que, definitivamente, não se firmam no mero contato virtual. O que acontece nas redes sociais se trata de uma expansão inimaginável do que costumávamos chamar “colegas”, ou seja, pessoas que conhecemos de maneira rasa e que convivem conosco em alguma área de nossa atuação, se limitando a isto. A diferença é que a quantidade de informações que os colegas costumavam ter antes era bem menor, visto que se tratava de um contato passageiro, sem maiores consequências. Hoje todos os colegas da classe, da academia, da aula de inglês têm acesso às mesmas informações que nossos familiares, e dividem a mesma lista de contatos.

Além disso, como se não bastasse, esses parecem ser contatos inevitáveis: é imprescindível aceitar a “solicitação de amizade” daquela pessoa com quem você estuda, como não? O mínimo de sociabilidade recomenda essa atitude – em termos atuais de sociabilidade, já que temos de lidar com etiquetas do dito mundo real e do mundo virtual. Mas, as coisas estão muito além disso: basta um olá na fila da padaria, e eis que quando acessamos o nosso perfil, aquela pessoa nos adicionou. Porque essa necessidade de ampliar ilimitadamente os contatos? Porque compartilhar nossas vidas com pessoas que, há dez anos, sem este meio, não teríamos motivos para tal? Pior: porque não recusar as solicitações, porque aceitar todas indiscriminadamente, porque o pudor em recusar, mas não em expor todos os detalhes de sua vida a desconhecidos?

Não é que a intenção aqui seja a de demonizar as redes sociais: elas são importantes sim, já sabemos o papel delas, por exemplo, na mobilização das pessoas na recente Primavera Árabe. Sabemos que elas são um espaço promissor para difusão de conhecimento – quando utilizada para tal, que também pode ser um suporte para encontrar antigos colegas, e, porque não, começar a estabelecer reais contatos com alguém conhecido. Todavia, o excesso de abertura coloca em risco a visão que temos da amizade – e também do amor – já que quase não há mais critérios, e todos parecem vivenciar uma equidade sentimental, uma democracia que, em excesso – como qualquer outra coisa – só pode ser prejudicial.

IV

Não pensemos que há um fosso abissal separando os tratados clássicos sobre a amizade daquilo que vivenciamos no presente através das redes sociais ou de pesquisas que levam em consideração reações fisiológicas em quando se trata desse tipo de relacionamento. Não é tão difícil estabelecer ligações entre todos eles, o que demonstra a atualidade do pensamento greco-latino, assim como a tradição contida na renovação, inclusive quando os suportes são diversos.

Aristóteles fala sobre a diminuição de amizade entre um velho e um jovem, ou mesmo entre os velhos, dizendo que

(…) tendem a ser mal humoradas ou rabugentas e não obtêm muito prazer na companhia alheia. [De fato] o bom humor e a sociabilidade parecem ser os principais componentes ou causas da amizade. Daí os jovens fazerem amizades com rapidez e os velhos não, posto que não fazem amizade com pessoas cuja companhia não apreciam (…) (ARISTÓTELES, 2007, p. 244-245)

Numa matéria da revista Superinteressante, que tem a amizade como matéria de capa, uma pesquisa atribui esse comportamento ao hormônio chamado ocitocina, tem função contrária da adrenalina: enquanto esta é responsável pela euforia excessiva e estado de alerta do corpo, aquela tem como prioridade estabilizar a pressão arterial, por exemplo, e aumentar certa sensação de conforto. Ficou comprovado que nos jovens a quantidade dela é maior, o que explicaria a facilidade com que travam novos relacionamentos. Com o passar do tempo o corpo diminui a produção de ocitocina, o que se refletiria também na recusa de certa pré-disposição em travar novos contatos.

Aristóteles também comenta que o número ideal de amigos são quatro. Essa seria a quantidade ideal de pessoas com as quais seria possível um relacionamento estável, passível de conhecer verdadeiramente o outro. Mais que isso, já seria os ditos “camaradas” ou aqueles que dizem ter muitos amigos, e não são bem vistos, pois conhecem todo mundo e não conhecem ninguém – sendo a recíproca verdadeira.

Assim, no tocante a amigos, haverá também um número limitado e deva ser, talvez, o maior número com o qual podemos conviver, porquanto observamos que conviver é a principal característica da amizade. Contudo, é absolutamente óbvio que é impossível conviver e partilhar a própria vida com um grande número de pessoas. Além disso, os amigos de alguém forçosamente são amigos também de outras pessoas, com as quais se supõe que também passarão os seus dias. Mas é dificilmente exeqüível que um grande número de indivíduos sejam todos amigos comuns. Além disso, é difícil compartilhar intimamente das alegrias e tristezas de muitas pessoas, pois é bem provável que alguém seja solicitado para regozijar com alguém e prantear com outra pessoa simultaneamente. (ARISTOTELES, 2007, p. 286).

Em pesquisa foi provado que o nosso cérebro tem, por mínimo, quatro o número de amigos – que nos fariam bem não só intelectualmente, mas também fisiologicamente, como, por exemplo, diminuindo nossas chances de desenvolver certas doenças. Em compensação, o cérebro só seria capaz de lidar com o máximo de cento e cinqüenta pessoas ao mesmo tempo: para além disso, escapa às nossas possibilidades as condições ínfimas de guardar informações para lidar com o outro.

O importante nisso tudo é que as redes sociais sejam um auxílio, e não única saída. A idéia, como diz Márcia Tiburi, de entrar no Complexo de Roberto Carlos [“eu quero ter um milhão de amigos”] não é boa, afinal, nem sempre sabemos as razões dessa necessidade. Pensando novamente no filme “A Rede Social”, Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, nos é apresentado como uma pessoa inteligentíssima, mas que, por isso mesmo, se sentia excluído de todas as possibilidades de participar das tradicionais fraternidades da faculdade. A baixa estima dele o faz criar uma espécie de grupo que dissolveria a singularidade das demais e, ainda por cima, o colocaria como centro das atenções, alcançando assim um reconhecimento que não seria possível de outra forma. Ao seu amigo e co-fundador do Facebook, Eduardo Saverin, Mark diz:

People want to go online and check out their friends, so why not build a website that offers that? Friends, pictures, profiles, whatever you can visit, browse around, maybe it’s someone you just met at a party. Eduardo, I’m not talking about a dating site, I’m talking about taking the entire social experience of college and putting it online.

Por outro lado, o personagem Sean Parker, que interpreta o fundador da Napster – site que disponibilizava download gratuito de músicas, até ser processado e fechado, como aconteceu recentemente com o Megaupload – diz, em certa altura, que inventou tudo aquilo para impressionar uma garota. O começo e o final do filme também nos dão a entender isso (não estamos pensando em termos de equiparação entre a realidade e a ficcionalização dos fatos, que fique claro), quando Mark termina com sua namorada, posta disparates em seu blog, e inventa um jogo em que acontece uma “disputa” entre quais seriam as alunas mais bonitas de Harvard, mergulhando de cabeça logo em seguida no projeto “thefacebook”. No final da trama, Mark sozinho depois do julgamento em que está respondendo por dois processos relacionados à criação do Facebook, acessa sua conta, procura o perfil da ex-namorada, hesita se a adiciona ou não… decide por fazê-lo e, até subirem os créditos do filme, Mark permanece atualizando a página constantemente, aguardando com alguma ansiedade a resposta de sua solicitação. Sim, a raiva, a baixa estima, a genialidade, a auto-superação foram motivos mais que suficientes para estimular a invenção dessa ferramenta sem a qual milhões de pessoas hoje parecem não mais conseguir viver, mas, a troco de que? Da atenção de uma só pessoa. Claro que muito mais está envolvido, mas pensemos na idéia de um grande feito realizado em resposta a um único objetivo: alcançar ou conseguir o afeto de uma determinada pessoa. Isto demonstra – na verdade, desmonta – toda a euforia em torno da quantidade de contatos. É claro que ninguém é uma ilha, máxima mais que conhecida, mas a presença real e intensa de algumas poucas pessoas é imprescindível. A ausência pela morte, como em Cícero e Montaigne, é dolorosa, mas com o tempo arrefece e deixa na lembrança os bons momentos. A ausência pela discórdia não parece se atenuar, na verdade, é revivida e reiterada pela lembrança daquilo que os separou, fazendo com que a dor esteja sempre latente. Procuramos um outro, senão um duplo, um espelho para melhor percebermos não só a nós, como também a tudo o que nos cerca.

A “fusão das vontades” ia de par com a troca das imagens, em que cada um dos dois amigos oferecia um espelho verídico. Unidade no desdobramento: unidade tanto melhor sentida quanto superava a dualidade; desdobramento tanto mais precioso quanto confiava à consciência do outro a verdade total de que o eu, em si mesmo, não possuía a certeza no mesmo grau (“teria, nas questões de meu interesse pessoal…, mais confiança nele do que em mim mesmo”). A perda de si na vontade do amigo era, igualmente, a expansão da esfera do eu: “O segredo que jurei não comunicar a ninguém, posso, sem ser perjuro, comunicá-lo a quem não é outro senão eu mesmo. Já é grande milagre dobrar-se assim.” Dobrar-se: a expressão pode designar o acréscimo por redobramento de uma identidade primeira – e a cisão, por desdobramento, de uma substância única. (STAROBINSKI, 1992, p. 54)

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Bauru, SP: EDIPRO, 2007.
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
______. Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
BORGES, Jorge Luis; FERRARI, Osvaldo. “Sobre la Amistad”. In: En Diálogo II. Ciudad de México: Siglo XXI Editores S.A., 2005.
CHARTIER, Roger (org). História da Vida Privada, 3: da Renascença ao Século das Luzes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
CÍCERO. Saber Envelhecer e A Amizade. Porto Alegre: L&PM, 2007.
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
COSTA, Camilla; GARATTONI, Bruno. “Amizade: porque é impossível ser feliz sozinho”. SuperInteressante. São Paulo: Abril, n.288, p.46-57, fev. 2011.
MERLEAU-Ponty, Maurice. “Leitura de Montaigne”. In: Signos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1972.
SENECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
STAROBINSKI, Jean. Montaigne em Movimento. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
SUPERINTERESSANTE. São Paulo: Fevereiro 2011, edição 288 Editora Abril S.A
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Um comentário sobre “Capítulo 3 – Amizade: variações e permanência. Por Anuska Vaz

  1. Projeto: Crítica literária – versão β
    Parecer relativo ao ensaio Amizade: variação e permanência, de Anuska Vaz.
    Parecerista: Clécio Vidal.

    A fluidez deste ensaio permite operar com as variáveis e semelhanças entre as péticas da amizade desenhadas pelo pensamento de autores clássicos de períodos diversos. Ao ler o texto do autor, imediatamente se nos coloca o desejo de investigar acerca do seguinte problema de pesquisa: como as fronteiras entre os sentimentos (a exemplo da relação fronteiriça entre o amor e a amizade) são trabalhadas nos textos de autores clássicos em comparação com o texto de autores contemporâneos?

    Se bem que, se este problema fosse resumido à primeira parte (dispensando a comparação com o contemporâneo), ou se fosse trabalhado exclusivamente com relação ao período hodierno, já haveria um problema de pesquisa instigante, visto que um dos elementos que caracteriza o fazer poético (entenda-se poética no sentido amplo, abrangendo a poiésis que tem como matéria-prima a palavra) é o esforço sensível e criativo de (re)formular as fronteiras entre os sentimentos, fronteiras estas que a vida em sociedade, cercada pela hipocrisia e pela pressão, enrijece.

    Mas, certamente alguém que escreve com desenvoltura inglesa, comparável à melhor fase de David Olson, e que mistura no texto os sotaques de Montaigne e de escritores portugueses, saberá dar um direcionamento a suas ideias de forma bem melhor que a sugestão apresentada acima.

    A entrada de Borges no ciclo de comparações suscita outro problema de pesquisa: como as relações entre amigos interferem na plasticidade literária ou no modo como a palavra é poeticamente modelada. Neste caso, como bem observa o autor do ensaio que está sendo vitimado por este parecer, a amizade se apresenta como fator constituinte da literariedade do texto (e aqui, embora não seja a intenção, corremos o risco de recair no reducionismo do formalismo russo. Mas, não se trata disso, pois, como bem propõe o autor deste ensaio, a amizade é forma, mas também vívido contexto, ambos dialeticamente relacionados).

    A comparação entre a amizade nas comunidades virtuais e o modo como os autores clássicos compreendem as comunidades é rica e se afasta do lugar comum que tem sido ver os fenômenos da sociedade em rede como reproduções em pequena escala do Big Bang, isto é, como fenômenos que, de forma quase ditatorial, impõem a novidade plena.

    Sugere-se que o autor, em futuros aprofundamentos desta pesquisa, recorra além do filme Rede Social um outro que, salvo engano, chama-se A Fraternidade e fala sobre as relações entre estudantes que participam de grupos de iniciados durante os estudos universitários.

    Ao refletir sobre os fantasmas que rondam a amizade nas redes sociais, a saber, a confusão entre amizade e sociabilidade e a confusão entre amizade e idealização transcendentalizada, o autor reflete sobre uma questão fundamental da era da informação: como a precariedade humana se situa ao confrontar o limiar do eterno? (vide a obra de Manoel Castells, A Era da Informação). E, nesse ponto, o questionamento filosófico termina se confundindo com um questionamento que atormenta e, ao mesmo tempo, instiga, a ilusão que os departamentos de Letras decidiram chamar de Teoria da Literatura.

    Apesar de inegavelmente válido o ponto de vista do autor, que se aproxima da linha de reflexão apocalíptica de Adorno e Horkheimer (dos quais Bauman é “discípulo”), recomenda-se que o autor invista mais na reflexão sobre o outro lado da moeda do Facebook, visto que a exposição que lá ocorre apesar de tornar as pessoas peças que anseiam pela perfeição como um produto que se esforça para ser adquirido, existe outro lado, um lado de experimentação e desobediência civil em que as pessoas renegam os limites rígidos e cartesianos entre o útil e o inútil, entre o bom senso e o ridículo, entre a beleza e a feiura e anseiam por uma estética e uma expressão poética em que haja espaço para entrelugares, tipo: o belo no feio ou o feio que se cerca do arranjo do belo (e isso, creio, seria válido também para os demais “opostos” como o ridículo e o razoável, entre outros).
    Perspicaz foi o ensaio observar que as nomenclaturas nas redes sociais não são em nada triviais. Ao ler a Genealogia da moral, o autor poderá observar como as palavras carregam heranças históricas relacionadas ao degredo e a aceitação do indivíduo pelo grupo social. E isso, certamente, continua se reproduzindo nas redes socais.
    Por fim, valeria a pena o autor refletir sobre como a tensão entre o formato aristotélico de amizade (amigos poucos), a amizade virtual (que tende à dispersão e ao apelo quantitativo) e o ideal romântico que, como lembra Marcuse em Eros e Civilização, é, em última instância o impulso de fazer o duo mergulhar no uno, estão relacionados na amizade em seu contexto contemporâneo.

    Agradecemos pela oportunidade de publicar o ensaio. Até uma próxima oportunidade.

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