Capítulo 2 – Recifração dos conflitos modernos: uma busca pela alma coletiva. Por Glauco Cunha Cazé

Glauco Cunha Cazé

Recifração dos conflitos modernos: uma busca pela alma coletiva

I

Do herói mítico ao sujeito moderno. Aspectos da representatividade

Dos tempos venturosos em que a figura emblemática de um herói altivo absorvia os desejos de uma coletividade devidamente representada em seus atributos irrefutáveis; respingam – sofregamente – em nossa contemporaneidade, as frações inquietas de um herói, desta vez, problemático. Da personificação de desejos coletivos, tem-se o conflito interior, a crise da identidade e a cultura super valorizada do eu. O postulado da representação do ontem parece dissolver-se em dúvidas sobre quem é, o que quer e aonde vai esse novo herói assentado em céticas acomodações modernas do hoje.

É bem verdade que aqui – de maneira intencional e provocativa – aproximamos a imagem do herói mítico das peripécias literárias homéricas (herói trágico que veste a própria medida do mundo) à figura do sujeito moderno (herói rebaixado) de nossos tempos. Tal aproximação quer, neste primeiro momento, problematizar a figura cartesiana desse sujeito questionador e seu poder de representação junto à sociedade moderna.

Esse sujeito atual, que aqui queremos heróico, não reclama para si, após René Descartes, o lugar e os direitos do mito como alma da literatura; pelo contrário, suas atitudes não são peripécias fantásticas e suas perguntas não são anuladas nas respostas, elas reverberam em questionamentos filosóficos solavancando uma sociedade de posicionamentos cada vez mais movediços. Seu comportamento solitário, sempre mais distante da unidade primária entre o eu e o outro, aponta para o abismo interno de sua existência, num permanente conflito particular que não o credencia mais à representante legítimo de uma coletividade.

Mas, como o culto do herói é um elemento necessário da história humana (ROSENFELD, 1999); o sujeito moderno, sobretudo na valorização do esforço individual, próprio da primeira metade do século XIX com o Romantismo; assume o lugar de representante de um ideal, agora não mais coletivo. O ideal da representação do eu como a única substância verdadeira1. Trata-se da representação de um mundo, mas um mundo particularizado, onde o eu não precisa do outro (diferente da individualidade que necessita do outro para o diálogo); em que cada cabeça se torna uma poética, um manifesto, uma disposição. Eis então os aspectos da representação deste novo herói moderno que anula a essência do herói mítico enquanto personalidade excepcional.

Na criação do herói mítico prevalece a crença primitiva de que todos os poderes humanos e naturais podem condensar-se numa só personalidade excepcional (ROSENFELD, 1999, p.36).

Esse novo herói moderno, acometido por uma hamartía comportamental sempre que se aproxima mais do humano e menos do divino (expondo assim, defeitos morais intrínsecos), tem como marca de subjetividade moderna sua excitação e capacidade de pensar o mundo a partir de outras possibilidades. Passa a ser o representante de si próprio, de seu particular mundo indivisível. Torna-se herói de si mesmo numa explosão de individualidade que marca o sujeito humano, como define Stuart Hall, para quem, as transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas (2006, p.25), antes divinizadas, agora, racionalizadas. O mito é criado como tentativa de explicar o mundo; o sujeito humano moderno surge para sabatiná-lo. A palavra mítica é afirmação plena, não permite dúvidas; por isso o mito não suporta três simples perguntas.

Profundamente dramático, o mito tinge tudo com as cores apaixonadas do amor e do ódio, do medo e da esperança. No seu bojo há sempre implicações metafísicas e religiosas, já que nele se manifesta uma interpretação totalizadora e unificadora do universo, das suas origens e da sua essência, assim como das forças fundamentais que nele atuam (ROSENFELD, 1999, p.36).

Já o sujeito humano moderno torna-se uma espécie de flaneur, descortinado por Walter Benjamin2, a contemplar, de seu particular universo, as passagens de um ambiente capitalista e coletivo numa sociedade moderna individualizante que não mais o reconhece como representante de seus ancestrais anseios divinos ou como um de seus primitivos heróis míticos. É a figura do indivíduo isolado, exilado ou alienado, colocado entre o pano de fundo da multidão ou da metrópole anônima e impessoal (HALL, 2006). É a assinatura do sujeito humano moderno.

O formato da representação passa, portanto, da primazia do inócuo, do estado sensível, do divino e da unidade totalizadora, ao postulado da individualidade egocêntrica, da racionalização pragmática e do comportamento segregador.

Essa aproximação intencional entre o herói mítico e o sujeito moderno que quer refletir sobre o que e quem ambos representavam e representam, respectivamente, em seus momentos históricos; servirá como parâmetro para reflexões sobre a literatura que nasce com William Shakespeare e Miguel de Cervantes e que apresenta a produtividade do espírito (que difere do mito); o eu como a única substância verdadeira3, que se filia ao arquétipo do sujeito moderno de que se falou até então.

O mito – matéria prima da literatura ocidental – chega à literatura moderna esvaziado de seu sentido mais aglutinador; esgarçado, principalmente, pela figura fragmentada do eu romantizado e já moderno do início do século XIX. Um eu que agora, por necessidade de afirmação, precisa se anunciar como representante de um determinado segmento; embora esse segmento reclamado seja tão fragmentado quanto o próprio eu representante. É de tal maneira essa partição que um grupo de negros escritores, por exemplo, pode se dividir em outros tantos grupos a partir do grupo inicial, dispondo-se em – ainda como exemplo – grupo de negros escritores de literatura feminina, grupo de negros escritores gays, grupo de negros escritores latino-americanos, entre outros. Decomposição não encontrada no contexto histórico do herói mítico de ethos incontestável. É preciso encontrar uma legitimidade ética para que o herói mítico possa ser conduzido a um ato desonroso.

Toda essa representação de si mesmo e de segmentos intencionalmente desdobrados promove uma fissura na literatura produzida a partir de Dom Quixote. Tanto na prosa quanto na poesia uma atmosfera conflituosa, quer seja na figura funcional do narrador, quer seja na representação da linguagem, quer seja na necessidade de um maior senso crítico por parte do leitor; apodera-se da literatura moderna propondo uma questão que passa a ser de caráter fundamental: como dar unidade ao que é tão diverso?

II

Recifração dos conflitos modernos: uma busca pela alma coletiva

As formas épicas não foram criadas por acaso, elas tentam mimetizar o seu momento e enaltecer a figura do herói agigantado em adjetivos. As epopéias desejam relatar algo digno de ser relatado, algo que não se equipara a todo o resto, algo inconfundível e que merece ser transmitido em seu próprio nome (ADORNO, 2003). Entretanto, a epopéia não corresponde mais aos anseios da modernidade; procria então o romance, que pertence a uma época em que a totalidade da vida já não é mais evidente. Na esteira de Lukács,

o romance é a epopéia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é mais dada de modo evidente, para a qual a imanência do sentido à vida tornou-se problemática, mas que ainda assim tem por intenção a totalidade. […] A epopéia dá forma a uma totalidade de vida fechada a partir de si mesma, o romance busca descobrir e construir, pela forma, a totalidade oculta da vida (2009, p. 55 e 60 grifo nosso).

A forma romanesca, ou melhor, o romance enquanto forma, ainda que na busca por essa totalidade oculta da vida, é o grande responsável pelo conflito moderno do distanciamento entre sujeito e o objeto, entre a essência do eu e do outro, proporcionado pela produtividade do espírito (LUCKÁS, 2009) e o pensar o mundo a partir de múltiplas possibilidades.

Mas quais as condições reais, na literatura moderna, de dar unidade ao que é tão diverso? Como sair do particular para o geral? Como, finalmente, unir o eu e o outro, anteriormente atados pelas formas épicas fechadas; num mundo tão fragmentado onde cada autor responde pelo seu particular olhar? As respostas podem advir da arriscada proposta de recifração dos conflitos modernos. O recifrar, tomado de empréstimo dos estudos sobre a modernidade de João Alexandre Barbosa, aqui, assume a conjugação neologística de reordenação do caos contemporâneo no exercício de perceber, entender e redirecionar de maneira conveniente as questões conflituosas da modernidade visando à busca da totalidade na manifestação literária e a unificação do sujeito e o objeto.

Com outras palavras:

Recifrar os conflitos da modernidade, expressão cunhada para guiar a tese que ora se apresenta, é aproximar as partidas, isoladas e inquietantes realizações e comportamentos do sujeito e do objeto (obra literária) numa tentativa de unificar intenções, de proporcionar uma alma coletiva ao sentimento e ao produto literário tão examinado de maneira avulsa pelas teorias estéticas do século XX. A condição de isolamento, como já visto, é característica do sujeito moderno e da prática do romance do eu como a única substância verdadeira; o que, a princípio, não representa ameaça ao fazer literário e nem se presta, aqui, como modelo a ser impiedosamente criticado. Os estudos do Gustave Le Bon sobre a alma coletiva, em Psicologia das Massas, de Sigmund Freud, reforçam que

no tocante à realização intelectual, continua verdadeiro que as grandes decisões do trabalho do pensamento, as descobertas e soluções de enorme consequência, são possíveis apenas para o indivíduo que trabalha na solidão. Mas também a alma coletiva é capaz de geniais criações do espírito, como a própria língua demonstra […]. E continua em aberto, além disso, o quanto o pensador ou o poeta individual deve aos estímulos da massa em que vive, se ele é mais que o consumador de um trabalho anímico no qual os outros colaboraram simultaneamente (2011, p.33).

Pensar, entender e redirecionar os conflitos responsáveis pelo rompimento da totalidade entre o eu e o outro, buscando propostas para uma convivência coletiva, pacífica e que se aproxime das culturas fechadas a que alude Lukács em seu Teoria do Romance; é o que aqui chamamos de recifração dos conflitos modernos.

Um caminho possível – conquanto aventureiro como a própria tese agora apresentada – para essa nova prática de recifração de conflitos com vistas à unidade literária está na ideia, por exemplo, do enfrentamento ao que Theodor Adorno chamou de crise do narrador e as impossibilidades do narrar. Leia-se narrador na concepção de Georg Lukács e Theodor Adorno, que difere dos estudos sobre o narrador no clássico ensaio do Walter Benjamin4 que disserta sobre o enfraquecimento da figura primitiva do narrador oral – passeando pelas formas simples (que surgem na oralidade, mas inscrevem-se na escrita) e os regalos da fabulação. O narrador que ora se mostra em crise é o condutor do romance moderno, o personagem para quem o mundo é menor que sua própria alma. E a crise que o acomete é a sua consciência de incompletude narrativa numa época de estrema instabilidade do romance enquanto unidade; numa época em que o próprio autor/poeta não consegue mais se posicionar de maneira segura como voz de uma determinada comunidade. Como ser representação num ambiente de fragmentação? O narrador se torna um conjunto unitário, insuficiente e inseguro de solucionar esses pontuais conflitos modernos.

Em seu ensaio Posição do Narrador no Romance Contemporâneo Adorno discute os limites do romancista e sua obra, observando que o romance deveria se concentrar naquilo que não é possível dar conta por meio do relato; enquanto ilumina o monólogo interior como narrativa mais afeita à contemporaneidade, que perdeu em totalidade o que ganhou em alargamento.

O enfrentamento dessa crise do narrar – consoante Adorno – está em o narrador reconhecer seus limites e transferir parte das interpretações às mãos do leitor, dividindo suas preocupações com este partícipe da construção narrativa, agora, cada vez menos passivo. Tal enfrentamento denuncia o perceber (incapacidade de narrar), o entender (que é preciso continuar a narrar), e o redirecionamento de posturas quando da anulação de uma ação particularizante para a divisão de responsabilidades (do narrador para o leitor). Materializa-se, assim, a alma coletiva, de relação harmoniosa (ou não) entre os atores literários que a modernidade insiste em analisar de maneira partida quando pondera, analiticamente, o autor, o texto e o leitor, de acordo com a teoria exercida.

A literatura moderna, portanto, deve recifrar (redirecionar os entendimentos) a interação escritor, narrador, leitor como contribuição a uma nova consciência totalizadora que pode e deve ser iniciada com a figura do escritor percebendo e exercitando seu papel social enquanto indivíduo de uma sociedade.

O escritor, numa determinada sociedade, é não apenas o indivíduo capaz de exprimir a sua originalidade (que o delimita e especifica entre todos), mas alguém desempenhando um papel social, ocupando uma posição relativa ao seu grupo profissional e correspondendo a certas expectativas dos leitores ou auditores (CANDIDO, 2006, p.84).

O escritor moderno, não obstante a dificuldade de se posicionar como porta-voz de um segmento instável e cada vez mais multiplicador de outros segmentos, deve se investir da capacidade de arregimentação social como forma de conduzir o processo literário. As mais antológicas discussões sobre a morte do autor5, aqui não encontram espaço e adequação se o que se quer, na recifração dos conflitos modernos, é a tentativa de unir o diverso, o espalhado. O autor foi, claramente, o bode expiatório principal das diversas novas críticas […] porque sua problemática arrastava consigo todos os outros anticonceitos da teoria literária (COMPAGNON, 2001). Entretanto, nesta nova concepção de agrupamento o papel do escritor não pode ser relegado a segundo plano ou exposto a críticas de correntes teóricas adeptas ao imanentismo pelo valor que atribuem ao texto enquanto autossuficente. A participação do escritor deve ser entendida como necessária e não mais analisada, de maneira única, pelo contexto histórico ou biográfico, mas, pela contribuição ao todo, como parte indispensável do entendimento e do prazer estético, na importância da obra, no resultado que, moderno como seja, corresponde ao um senso de coletividade.

Outro caminho possível na junção de pedaços espargidos pela modernidade é o da importância do leitor moderno como comparte da produção literária; e não como sujeito isolado e passivo. O texto literário é caracterizado por sua incompletude e a literatura se realiza na leitura. […] O objeto literário autêntico é a própria interação do texto com o leitor.  (COMPAGNON, 2001). A palavra interação não surge por acaso; ela contraria os estudos separatistas do objeto literário e materializa o desejo de unificação. A Estética da Recepção, que garganteia a imperiosa existência do leitor para a efetiva funcionalidade da obra, descuida, muitas vezes, desta interação dos pares literários como importância para uno, para a completude literária. Trata-se, uma vez mais, de perceber (a importância do leitor), entender (sua participação na obra) e redirecionar (considerar relações) o papel do leitor.

É bem verdade que o exercício da recifração (sobretudo na poesia moderna) termina por eliminar a subjetividade, o que proporciona o tom mais pragmático e objetivo das análises literárias; entretanto, não necessariamente de forma isolada. O redirecionamento de valores e funções que redesenha uma totalidade perdida na passagem da epopéia para o romance moderno; aproxima-se do importante pensamento de Lukács quanto à organização do discurso através da forma. As formas não são maneirismos e para Lukács o importante é a forma. A recifração dos conflitos modernos se apresenta como forma (discurso) que busca a unidade de pensamento, a condução coletiva do fazer literário, a reorganização de ideias.

O conflito moderno se mostra na linguagem. No poema moderno não há, na linguagem, uma forma. Seja qual for o poeta, está sempre presente o conflito entre a linguagem da poesia, individualizante e solitária, e a condição do poeta buscando interpretar a voz social (BARBOSA, 1986). Tem-se, desta maneira, um dos grandes paradoxos da literatura moderna que tanto contribui para um distanciamento entre a essência do eu em relação ao outro. Neste conflito da linguagem, individualizada e solitária, o poeta moderno parece desprezar o sujeito leitor, embora necessite de sua interferência para existir. Paradoxo observado por João Alexandre Barbosa em seu Ilusões da Modernidade.

Enquanto parece desprezar o leitor na medida em que não facilita o relacionamento através da linguagem, o poeta moderno passa a depender da cumplicidade do leitor na decifração de uma linguagem que, dissipada pela consciência, já inclui tanto poeta quanto leitor (BARBOSA 1986, p.22).

A contradição nesse conflito moderno se faz ainda mais extravagante se levado em consideração que – respeitadas as devidas diferenças entre língua e linguagem – nada mais coletivo e social que o uso da língua, da linguagem, da interação comunicativa; é o que pensa Stuart Hall a respeito de como passar do individual para o coletivo: no uso da língua que é um sistema social e não um sistema individual. Ela pré-existe a nós (2006, p.40).

A consciência de que vai ler o poema é o que marca o leitor na poesia moderna. A consciência de leitura, a percepção histórica. O senso crítico. O redirecionamento de posicionamentos literários também diz respeito à relação com a tradição. Para o poeta moderno, a tradição não é somente aquilo que é preciso desprezar ou ultrapassar; é a permanente recuperação da linguagem da poesia enquanto discurso intertextual (BARBOSA, 1896). A junção tradição e modernidade também representa o ideal da unidade, do instigante desejo de passar do particular para o geral, de reviver aspectos em que a totalidade se aproxima do momento em que, com Homero, o divino, o sensível e o mundo faziam parte de um todo.

De certo que a eficácia de propor uma forma que ate o que com o romance moderno se desvinculou é de toda relativa, uma vez que, próprio do moderno, a totalidade rompida entre o eu e o outro corrobora esse feitio do sujeito humano contemporâneo e suas vicissitudes; torna-se marca registrada de um tempo. Além da própria característica intrínseca do romance enquanto forma que representa a alegoria de um novo comportamento no fazer literário. O romance é a forma da aventura do valor próprio da interioridade; seu conteúdo é a história da alma que sai a campo para conhecer a si mesma, […] e, pondo-se à prova, encontrar a sua própria essência (LUKÁCS, 2009).

Georg Lukács, quando discorre sobre as culturas fechadas em seu conceito de épica, apresenta a interação indivíduo – comunidade ausente de cissura entre o herói e o seu meio, ao passo que, o herói do romance moderno mostra-se distanciado de sua comunidade.

O círculo em que vivem metafisicamente os gregos é menor do que o nosso: eis porque jamais seríamos capazes de nos imaginar nele com vida; ou melhor, o círculo cuja completude constitui a essência transcendental de suas vidas rompeu-se para nós; não podemos mais respirar num mundo fechado. Inventamos a produtividade do espírito: eis porque, para nós, os arquétipos perderam inapelavelmente sua obviedade objetiva e nosso pensamento trilha um caminho infinito de aproximação jamais inteiramente concluída (2009, p.30 grifo nosso).

São considerações de um autor que, na tentativa de explicar o essencial do homem – como a “essência” se torna “existência” e como a “existência” se torna “essência” – termina por inviabilizar a forma (organização discursiva) de recifração dos conflitos modernos que até aqui se defendeu como possibilidade de alcançar uma totalidade que destoe da forma fragmentada estabelecida para o moderno. Toda a forma é a resolução de uma dissonância fundamental da existência, um mundo onde o contrassenso parece reconduzido a seu lugar correto, como portador, como condição necessária de sentido (2009, p.61); continua Lukács, na missão de afastar qualquer possibilidade de unificação no comportamento da literatura moderna. Diz mais: A mentalidade do romance é a virilidade madura, e a estrutura característica de sua matéria é seu modo descontínuo, o hiato entre a interioridade e a aventura (2009, p.90); ou seja, o romance torna-se a forma representativa da modernidade.

Entretanto, a tese defendida por Lukács parece ter uma limitação espaço-temporal quando trabalha a continuidade, a passagem da épica ao romance contrastando com a tragédia. Ou seja, apresenta-se como um tratado que visualiza a forma do romance, depois de Cervantes, com suas diferenças em relação às formas fechadas da antiga épica; enquanto que a proposta de recifração dos conflitos modernos, passa pela tentativa de aproximação entre os modelos épicos e modernos, mas vai além quando defende, também, a análise do objeto literário sem os preconceitos estabelecidos por teorias separatistas que fatiam o objeto em nome da análise.

Longe de ser um pensamento original e revolucionário, as ideias aqui defendidas tentam, tão somente, responder o que se indagou no início desse capítulo: como dar unidade ao que é tão diverso?

São questionamentos que, as mais das vezes, ferem o sentido e a ordem natural da evolução literária quando desejam encontrar caminhos para uma totalidade que não se encaixa; como quebra cabeças de peças em tamanhos diferentes. Todavia, são questionamentos que explicitam o comportamento egocêntrico do sujeito pós-romantismo e propõem possibilidades de relação mais harmoniosa com sua comunidade e, sobretudo, com o outro. Muito próximo do que o Jacques Lacan chama de “formação do eu no olhar do outro” baseado nos estudos do inconsciente de Freud.

O tempo torna-se fundamental para respostas mais seguras a todos os questionamentos aqui levantados. Afinal, a vida é cíclica, a literatura, idem. Não nos surpreenderemos se daqui a algum tempo, o Deus que nos abandonou, volte a reinar num novo contexto de cultura fechada e de representações totalizante.

Referências

ADORNO, Theodor W. Notas de Literatura I. Tradução e apresentação: Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades, Ed.34, 2003.
BARBOSA, João Alexandre. As Ilusões da Modernidade: notas sobre a historicidade da lírica moderna. Ed. Perspectiva. Coleção Debates. 1.ed., 1986.
CÂNDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade. 9. Ed. Ouro sobre Azul: Rio de Janeiro, 2006.
COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria e senso comum. Tradução: Cleonice Paes Barreto Mourão, Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: Ed.UFMG, 2001.
FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e análise do eu e outros textos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. Das Letras, 2011.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva, 11.ed. Rio de Janeiro, 2006.
LUKÁCS. Georg. A teoria do Romance: um ensaio histórico filosófico sobre as formas da grande épica. Tradução, posfácio e notas de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades, 2ª Ed., 2009.
ROSENFELD, Anatol. O Mito e o Herói no Moderno Teatro Brasileiro. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
Notas deste artigo
1. Em Teoria do Romance, de Georg Lukács (2009).
2. Referência ao famoso ensaio Paris, capital do século XIX. Benjamin, Walter. Passagens.
Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/Imesp, 2007 [1935].
3. Em Teoria do Romance, de Georg Lukács (2009).
4. Referência ao famoso ensaio O Narrador – Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov (1936).
5. Referência ao artigo La Mort de l’Auteur (1968), de Roland Barthes.
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Um comentário sobre “Capítulo 2 – Recifração dos conflitos modernos: uma busca pela alma coletiva. Por Glauco Cunha Cazé

  1. Projeto: Crítica literária – versão β
    Parecer relativo ao ensaio Recifração dos conflitos modernos: uma busca pela alma coletiva, de Glauco Cazé.
    Parecerista: Cláudio Eufrausino.

    Uma das questões mais difíceis no diálogo com a teoria do romance, de Lukács, é enfrentar o abismo axiológico diante do qual ela nos coloca: como escapar da angústia solitária da fragmentação sem recair numa totalização fascista em que no lança a tentativa frustrada de retomar a unificação épica entre mundo e sujeito de caráter épico sem recair?

    O ensaio do autor, com acuidade e fluidez, afasta-se da tentação e do comodismo de render-se ao abismo axiológico mencionado. E não se contenta em pairar no vazio. Propõe substanciosa reflexão sobre como o fazer literário reúne os estilhaços que a modernidade construiu ao explodir a unidade da atmosfera épica. Reunião que pressupõe não o alcance do Nirvana, mas um circuito em que percepção, entendimento e redirecionamento fazem girar a construção poética, rompendo com o divórcio entre leitor e autor que as teorias literárias insistem em promover.

    Acredito que seria um importante tema para futuras pesquisas a discussão de como se dá, em obras literárias (como a de Vinícius de Morais), o conflito que a produtividade do espírito instaura: entre o que se perde em totalidade (do épico) e o que se ganha em alargamento (no romance). O autor, com a sagacidade de sua escrita, pode explorar, teoricamente, estas noções de totalidade e de alargamento, produzindo análises ricas. A própria oscilação entre totalidade e alargamento – no horizonte da recifração (e de seus momentos, isto é, o perceber, o entender e o redirecionar) – pode ser um profícuo objeto de pesquisas.

    Perguntamos ao autor se é possível reformular a seguinte passagem, na página 6: “Leia-se narrador na concepção de Georg Lukács e Theodor Adorno, que difere dos estudos sobre o narrador no clássico ensaio do Walter Benjamin, que disserta sobre o enfraquecimento da figura primitiva do narrador oral, passeando pelas formas simples (que surgem na oralidade, mas inscrevem-se na escrita) e os regalos da fabulação.”.

    A passagem poderia ficar assim: Leia-se narrador na concepção de Georg Lukács e Theodor Adorno – que difere dos estudos sobre o narrador no clássico ensaio do Walter Benjamin que disserta sobre o enfraquecimento da figura primitiva do narrador oral – passeando pelas formas simples (que surgem na oralidade, mas inscrevem-se na escrita) e os regalos da fabulação.

    Propomos isso, a fim de evitar uma confusão sobre quem passeia pelas formas simples, se é Adorno ou Benjamin.
    Outra passagem que pedimos ao autor para rever é a seguinte, situada na página 8:
    “As formas não são maneirismos e para Lukács o importante é a forma. A recifração dos conflitos modernos se apresenta como forma (discurso) que busca a unidade de pensamento, a condução coletiva do fazer literário, a reorganização de ideias”.

    Propomos que o autor, de forma breve (um parágrafo é suficiente, mas isso quem decide é o autor), desenvolva a assertiva: “As formas não são maneirismos e para Lukács o importante é a forma”.

    Sugere-se que o autor, em outros artigos, trabalhe a instigante ideia lançada ao final do artigo sobre “o retorno do Deus que nos abandonou e a formação de um novo contexto de cultura fechada e de representações totalizantes”. Neste caso, uma aproximação entre teoria da literatura e filosofia – com auxílio de Nietzsche, por exemplo – renderia uma boa polêmica.

    No mais, o ensaio está apto para a publicação. Agradecemos pela oportunidade de lê-lo e publicá-lo.

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