Capítulo 13 – Ao meu amigo Steven com carinho… Por Gustavo André Táriba Brito

Gustavo André  Táriba Brito

Ao meu amigo Steven com  carinho…

 

Checo o outlook e uma mensagem marcada como “assunto urgentíssimo” encabeça a lista da caixa de entrada. À direita aparece a figura de um clipe indicando arquivo anexado. O email demora a abrir apesar da insistência dos meus cliques. Primeira reação é receio. Vírus, corrente ou cachorro desaparecido? O suspense de ter o computador infectado cai por terra ao ler a justificativa do porquê de ter recebido tantos megabytes. O tom da mensagem é tal como acontece naquele filme impossível de Tom Cruise. A missão, se eu escolher aceitar, é transpor todo um site de uma grande empresa internacional de informática da língua materna para a inglesa. Pagamento, combina-se depois. Em caso de recusa, o email deve ser imperativamente encaminhado à lixeira virtual. Para o tradutor, é sempre bom ter algo além de certidão de nascimento e resumo de dissertação como objeto de trabalho. Desafio aceito.

“Freelas” como esse são raros e não caem do céu. Esse foi “Q.I.” dos grandes. Normalmente grandes empresas confiam a tradução a outras empresas especializadas no ramo as quais possuem toda uma equipe e softwares caríssimos garantindo um certo alívio ao contratante, sobretudo no que diz respeito ao prazo. Quanto a mim, podemos dizer que sou mais tradicionalista, tipo o “vitrola de ficha” da tradução. O trabalho é todo manual e visto e revisto por uma só pessoa. Se fosse um filme, seria engraçado ver meu nome repetidamente passando no letreiro, ocupando todas as funções da produção. Porém o trabalho é silencioso e nunca irá constar nem em nota de rodapé. Enfim, são ossos do ofício.

Sou um professor de língua estrangeira que nas horas vagas traduz um documento word cá e acolá, sem muita pretensão de fazer disso meu métier principal. É difícil viver dessa profissão. Há escassez no mercado tanto na procura quanto na demanda. As poucas que acontecem são renegociadas à exaustão pelo cliente que acha injusto qualquer coisa por mais de 20 reais a página, seja uma versão (da língua materna para língua estrangeira), um tema (da estrangeira para a materna) ou uma correção ortográfica. Prefiro ter uma renda mensal fixa a me aventurar completamente por esses mares tortuosos os quais contornam a Torre de Babel, mesmo que as palavras “Bacharel” e “Tradução” estejam impressas em letras garrafais no meu diploma universitário exatamente nessa ordem.

Na madrugada, horário do ócio criativo, finalmente abro o email da tal empresa para baixar o conteúdo. Na verdade, se trata do site de um evento em São Paulo que reúne grandes artistas da computação gráfica, responsáveis pelos efeitos especiais de todos aqueles filmes que adoramos. Fazendo uma leitura rápida nos perfis, fisguei nomes como Steven Spielberg, Peter Jackson e Ridley Scott (assim, sem pressão). O trabalho consistia em colocar todos os banners, textos, informações, perfis, conteúdo das palestras, além de preço, forma de pagamento e opção de assento, para o bom entendimento de um eventual estrangeiro interessado em participar.

A entrega estava prevista para 5 dias após o recebimento da mensagem. Como já havia perdido um por não saber onde estava me metendo, restava-me 4 para estar tudo nos conformes. Sem contar com as 7 horas de sala de aula, provas para corrigir, preparação de material e um cachorro que exige muita atenção.

Dicionário, gramática, sites de ajuda a postos e dão-se início às traduções contra o tempo. A ordem é: todas as palavras conhecidas são passadas tal qual devem ser ao pé da letra. Diretor é director e ninguém discorda. A palavra filme pode ficar Movie, Film, Picture ou Feature, evitando repetições. O Like pode ser “curtir”, “gostar” ou “tipo”. Das polissemias nos ocuparemos mais tarde. Todos os artistas work com cinema, certo, mas work in, on, ou at? A preposição faz a diferença. E se Steven (somos íntimos) souber que eu disse que ele trabalhava num cinema UCI da vida ao invés de na indústria do cinema? Não quero cliente insatisfeito, muito menos fechar as minhas portas para Hollywood. Soube que o diretor de Jurassic Park é um cara vingativo. Muita coisa está em jogo.

Passados três dias, a combinação Coca-Cola e cigarro não mais combatiam o sono. Quanto mais a tradução progredia, mais sentia a vontade de voltar atrás e checar tudo três vezes para ter certeza de não haver nenhuma falha. O cliente já havia ligado algumas outras vezes para enfatizar o prazo, pois o pessoal do site estava pendente do envio; ligações as quais passei a ignorar. O trabalho de tradutor é inversamente oposto ao de um atleta olímpico: o primeiro não avança sob pressão.

Ninguém que mexe com tradução, formado ou não, é obrigado a saber todos os termos a serem traduzidos e isso não é levado em conta. Lembro do caso de uma amiga íntima e de profissão incumbida de passar do português para o inglês um manual de elevador com todos os botões, cabos, porcas e parafusos nele contidos. No meu caso, cada palestrante tinha trabalhado em no mínimo vinte filmes diferentes, por isso cada um tinha que ser colocado de acordo com o titulo original. Dez palestrantes vezes vinte filmes cada um é igual a duzentas buscas no site IMDB. Foi Difícil? Não. Demorado, sim. Explicando dessa maneira, nenhum freguês acharia sensato o tempo desperdiçado num meio onde prazo é crucial!

O desespero estava batendo mais forte que a vontade de continuar. A linha que separa meus anos de faculdade, cursinho de língua e intercâmbio no exterior do inglês de Joel Santana estava constantemente sendo cruzada, obrigando a redobrar minha já comprometida atenção. O celular passeava pela mesa no modo silencioso/vibratório sem eu ousar atendê-lo. Ligaria para um concorrente, pediria ajuda aos universitários, admitiria mea culpa e faria um suicídio profissional de proporções Hollywoodianas? Umas palavrinhas chatas de um linguajar que não se acha no vocabulário do Houaiss (imagine no meu!!!!) me fizeram “tocar” como num jogo de dominó. Desisto.

Abri o Facebook e desabafei: “Estou há 24h sem dormir e não consigo terminar algo que me comprometi. #Steven_Spielberg, foi mal”. Mensagem apagada. “Professor de manhã e tradutor à noite não dá. Escolha uma carreira e seja feliz”. Deleto. Nessa hora, um amigo meu de informática fica “on” e logo mando lhe as 30 páginas com os termos sublinhados para passar para o inglês. Minutos depois e os hieróglifos que tanto me torturaram foram decifrados numa rapidez impressionante. Segundo ele, todas as palavras de informática advêm do inglês, logo os termos são mais comum na língua de origem que em português. Nota mental: não hesitar em pedir socorro a alguém da área de preferência com antecedência e evitar danos à frágil auto estima. Na rede social escrevi “Free Pussy Riot!” e apertei “ok”. Ninguém precisava saber do acontecido.

A música “I Wanna Break Free” do Queen embalou o ponto final dessa aventura. Respondo à última ligação do patrão apenas para advertir quanto ao término iminente. Uma lida minuciosa, muda-se algumas palavras e o arquivo já segue anexado com cópias para os designers da página da web. C’est fini! O evento passou no Jornal da Globo e repercutiu na imprensa internacional. Meu nome não foi creditado nem na parte “agradecimentos” do site. O pagamento continua suspenso e cruzo os dedos para que não seja por algum erro lexical. Naquele dia, dormi logo após o envio e, no meu sonho, meu bróder Steven disse que o trabalho estava impecável e me agradeceu por tudo.

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Um comentário sobre “Capítulo 13 – Ao meu amigo Steven com carinho… Por Gustavo André Táriba Brito

  1. Projeto: Crítica literária – versão β
    Parecer relativo ao ensaio Ao meu amigo Steven com carinho…, de Gustavo André Táriba de Brito
    Parecerista – Cláudio Eufrausino

    É importante não esquecer que um parecer sobre algo é a difícil tarefa de se situar entre o subjetivo e o objetivo, que brincam de cabo de guerra dentro da arena de significados da palavra “avaliação”. É também a complicada tarefa de “julgar” e ainda ter de se preocupar em dosar adequadamente críticas e elogios que, fora da medida, podem desandar a receita de uma avaliação justa. Esta observação não é inócua, se pensarmos que o texto do autor dá forma plástica ao mesmo tipo de cabo de guerra mencionado.

    E, como se trata de uma revista que pretende ser uma versão beta (algo que pressupõe experimentalismo), uma das graças do trabalho de quem formula o parecer é poder fazer deste mesmo parecer, minimamente, um diálogo e não apenas um resumo seco apontando falhas ou decretando qual o destino que o texto merece.
    O ensaio resvala, perigosa e criativamente, a fronteira da crônica e retoma uma tradição na qual se inserem Platão (tomado por alguns como teatrólogo, sendo seu personagem principal Sócrates) e Walter Benjamin: para alguns um dos maiores filósofos que a literatura já teve, para outros, um dos maiores literatos do campo da filosofia e, para os desavisados, um mau escritor.

    Benjamin tinha um jeito particular de exercitar a interdisciplinaridade. Ele falava sobre linguística com um texto de forma literária e, assim, além de refletir sobre linguística e literatura trazia por tabela reflexões sobre a filosofia.
    Sente-se algo assim na leitura do ensaio-crônica do autor que, em sintonia com o jornalismo literário, reflete sobre questões como o difícil diálogo do tradutor com a problemática de inserir as palavras nos diferentes gêneros textuais, além de perceber como as tecnologias da informação não são meramente facilitadoras do trabalho tradutório, mas agentes de complexificação da relação entre palavra materna e palavra traduzida, relação esta que, como observa o autor, traz – para o bem e para o mal – diferentes intermediações (de ordem objetiva e de ordem subjetiva) como, por exemplo:

    • Os compêndios formalmente reconhecidos – os tradicionais dicionários
    • A informação dispersa – redes sociais, tanto as virtuais quanto as “reais”
    • As tecnologias e outros automatismos – a exemplo dos tradutores eletrônicos, se bem que o dicionário não deixa de ser um agente de automatismo
    • A amizade e a parceria

    Acredita-se que o estudo destes “atravessadores” do processo de tradução renderia uma importante pesquisa para a área das Letras. Certamente, o autor enfrentará objeções e insultos ao modo como estrutura sua reflexão teórica, a exemplo do que ocorreu com o próprio Benjamin. Mas, alguns teóricos já conseguiram driblar o pressuposto medíocre de que a reflexão é sinônimo de apuds e de uma escrita que simula a despersonalização. Exemplo disso está na própria UFPE em que um antropólogo escreveu sua dissertação de mestrado em formato de romance.
    Consideramos que o texto do autor foi dos únicos que captou e aceitou o desafio de ser uma versão beta e que, mesmo não sendo explicitamente associado a um tema da literatura, pode ser convertido em ferramenta para estudantes não só de Literatura como das demais áreas que dialogam com o trabalho tradutório.

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