Capítulo 10 – Je est une autre: Notas sobre autoficção em Il sentiero dei nidi di ragno. Por Carla Araújo Lima da Silva

Carla Araújo Lima da Silva

Je est une autre:  Notas sobre autoficção em  Il sentiero dei nidi di ragno

Introdução: entre a ficção e a experiência

La mia vita in quest’ultimo anno è stato un susseguirsi di peripezie […] sono passato attraverso una inenarrabile serie di pericole e di disagi. ho conosciuto la galera de la fuga, sono stato più volte sull’orlo della morte. Ma sono contento di tutto quello che ho fatto, del capitale di esperienze che ho accumulato, anzi avrei voluto fare di più.

CALVINO, 1993, p, XV

Em 1947, Italo Calvino apresenta ao mundo das letras o seu primeiro romance intitulado Il sentiero dei nidi di ragno, traduzido no Brasil como A trilha dos ninhos de aranha. O romance trata da história de Pin, um garoto abandonado que vive apenas com sua irmã, uma prostituta bastante conhecida pelos homens da cidade e principalmente pelos oficiais alemães que por ali transitam. É de um desses oficiais que Pin, o garoto do beco comprido, rouba uma arma, uma “pê-trinta-e-oito” (CALVINO, 2004, p, 75) e decide escondê-la em um local secreto: a trilha dos ninhos de aranha, local onde ninguém mais sabe onde é, e que Pin só revelará aquele que se mostrar merecedor de sua amizade e confiança. Por conta do roubo da arma, Pin se vê obrigado a fugir e, nessa fuga vive grandes aventuras e confusões, conhecendo, ao longo de sua jornada, diversos tipos de pessoas intencionadas em ajudá-lo ou prejudicá-lo, como é o caso de Pele, garoto que finge amizade a fim de roubar-lhe a arma. Todas as desventuras pelas quais passa o garoto do beco comprido culminam no encontro deste com Cugino, um matador que decide levá-lo ao destacamento de Dritto. A partir desse momento Pin passará a conviver com os partigiani, grupo de guerrilheiros que fazem parte da Resistenza na luta contra o nazi-fascismo que vigorava na Itália.

É através das peripécias vividas pelo endiabrado Pin no destacamento um tanto ‘incomum’ de Dritto, que Calvino se propõe a representar um momento bastante caro à história da Itália, reconstruindo a realidade vivida pelos italianos em tempos de guerra. Um fato que, a priori, não determina a interpretação do texto, mas ajuda a compreendê-lo, é o de que boa parte das experiências e sentimentos narrados no romance fizeram parte do repertório de vida do jovem Calvino, que, em 1944, ingressou para o grupo dos partigiani em San Remo, a fim de descobrir, para além dos livros, como se dava realmente o processo de resistência contra a opressão do sistema totalitário fascista.

Considerado um dos autores mais importantes da literatura neorrealista italiana, Italo Calvino se via em um grupo artístico – tendo em vista a presença da estética neorrealista em vários segmentos da arte, mais conhecidamente no cinema – que tinha a intenção de representar a realidade tal e qual de uma guerra que destruía o país. Fiel a essa condição de porta-vozes de uma realidade, o que se pode perceber, na produção artística da época, foi a união de artistas advindos de várias cidades italianas, num sentimento de Itálias partidas, que desejavam, através da arte, deflagrar a crueza de um momento histórico, como explicita o próprio Italo Calvino:

O ‘neo-realismo’ não foi uma escola. (Tentemos dizer as coisas com exatidão). Foi um conjunto de vozes, em boa parte periféricas, uma descoberta múltipla das diversas Itálias, também – ou especialmente – das Itálias até então mais inéditas para a literatura. Sem a variedade de Itálias desconhecidas umas das outras – ou que se supunham desconhecidas -, sem a variedade dos dialetos e das gírias a serem fermentados e amalgamados na língua literária, não teria havido ‘neo-realismo’. (CALVINO, 2004, p, 7)

O uso da temática da guerra nos textos literários nem sempre se pauta em experiências reais, vividas pelo autor ou por alguém próximo a este. O que diferencia Italo Calvino e o seu primeiro romance é exatamente o fato do escritor italiano ter feito parte do grupo da Resistenza contra o fascismo. A experiência de Calvino é parte importante na construção da narrativa e do imaginário oferecido pelo autor. Tendo como inspiração os escritores americanos dos anos 30, a exemplo de Ernest Hemingway e a Guerra Espanhola em Por quem os sinos dobram, Calvino se determina a escrever, a priori, algo que pudesse traduzir com o máximo de precisão e imparcialidade as suas impressões sobre os movimentos de resistência italianos e toda a configuração social na qual os guerrilheiros estavam inseridos.

No entanto, antes de tentar retratar a guerra de forma condizente com a realidade empírica, a proposta de Italo Calvino, ao escrever Il sentiero dei nidi di ragno era construir uma narrativa que fosse além da mera descrição de fatos. Calvino, através de Pin e do destacamento de Dritto, conta a realidade da Itália e, por consequência, as impressões que teve durante sua experiência enquanto soldado partigiani através do processo de fabulação, bastante influenciado por seu imaginário literário infantil, a exemplo de A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson. A fabulação, presente em quase todos os momentos da narrativa faz parte da estética de Calvino e surge no intuito de suavizar e, ao mesmo tempo, brutalizar a realidade, tendo em vista que, por meio do olhar de Pin, oscilamos entre a leveza da inocência infantil diante da guerra e a crueldade de tempos difíceis que usurpam a infância de Pin e o obrigam a criar-se e defender-se por entre os bosques da vida.

Considerando a vivência pessoal de Italo Calvino como um soldado partigiani, a problematização que se faz ao analisar Il sentiero dei nidi di ragno é que existem duas possibilidades de se ler a narrativa: uma biográfica e outra puramente ficcional. A priori, o pacto que Italo Calvino faz com seu leitor é um pacto ficcional. O romance se propõe a contar uma história inventada e que não tem nenhuma relação com a história pessoal do autor, sendo assim, ainda que ciente da participação de Calvino na Resistenza, a primeira chave de leitura oferecida não autorizaria considerar a narrativa autobiográfica, tendo em vista que o autor não pactua com o leitor uma verdade incontestável. Deste modo a única interpretação que poderia ser feita da narrativa italiana seria a de um texto ficcional. A experiência de Calvino serviria ao leitor apenas como referência para a construção de um imaginário e com base na guerra civil na Itália.

Com a intenção primeira de isentar do texto suas experiências particulares, Calvino coloca-se entre a narrativa neorrealista e a fábula no intuito de narrar um momento da história italiana de forma a aproximar-se da realidade através dos elementos da fábula. A estética fabular, própria do autor italiano é o que o diferencia dos demais autores neorrealistas. A inserção de elementos típicos das fábulas e dos contos de fadas traz à narrativa um caráter mágico e transformador da realidade, para o bem e para o mal, pois, vale lembrar que é nas florestas que as princesas se perdem, é nas florestas que as árvores e os bichos falam, conferindo, também, um aspecto fantasmagórico aos bosques. Ou seja, Calvino brinca com a ambientação de sua história verídica de guerra oscilando entre o real e o fantástico, entre os bosques onde aranhas fazem ninhos, bosques que, segundo Pin, são encantados; e entre as prisões sujas e escuras e as barracas de acampamento dos partigiani.

Para além da intenção de contar a história de Pin, pode-se perceber, também, em Il sentiero dei nidi di ragno a presença de elementos biográficos na narrativa. Diante de suas experiências, Calvino, num processo de despersonalização, termina por inserir muito de si na construção da história de Pin. Fato é que a narrativa não se propõe a ser um escrito autobiográfico por excelência, para isso, pode-se recorrer à obra Eremita em Paris – Páginas autobiográficas (2006), conjunto de cartas, diários e escritos deixados pelo autor e reunidos após a sua morte.

Com relação aos aspectos biográficos perceptíveis na narrativa em questão, vale relembrar o conceito de autor-modelo explicitado por Umberto Eco (1998), no qual a cooperação entre autor e leitor se daria exatamente pela existência de um leitor-modelo que teria posse das referências necessárias para a compreensão e interpretação dos fatos e dicas postas no texto. Sendo assim, o leitor-modelo de Calvino, ao ter acesso à primeira narrativa do autor saberia, de antemão, que o autor italiano passou alguns anos de sua juventude em um destacamento partigiani, podendo, assim, notar algumas influências dessa vivência ao longo da narrativa.

Calvino, portanto, constrói um texto ficcional que consente a presença de elementos e sentimentos biográficos, confundindo o leitor quanto à possível ligação entre a vivência das personagens e a vivência do próprio escritor. A incerteza do leitor quanto à ligação entre o jovem Calvino e as suas personagens, além dos discursos e vivências destes, só se desfaz em 1964, quando o autor, no intuito de explicar os motivos que o levaram a escrever Il sentiero dei nidi di ragno, fornece a quem lê o seu romance, através de um prefácio, a segunda chave de transposição que irá autorizar o leitor a tecer uma interpretação na qual as experiências e, principalmente, os sentimentos e ideologias políticas defendidas por um jovem Calvino são representadas e se fazem presentes nas ações, falas, sentimentos e vivências de cada personagem.

Eu sou o outro: autoficção e despersonalização

Italo Calvino, em um primeiro momento, propõe ao seu leitor uma narrativa ficcional baseada em um fato histórico que foi a participação dos soldados partigiani na luta contra o fascismo na Itália. O viés de leitura proposto é puramente ficcional e cabe ao leitor aceitar isso. Porém, 17 anos mais tarde, Calvino oferece aos seus leitores um prefácio sobre Il sentiero dei nidi di ragno, no desejo de esclarecer algumas questões sobre a feitura do romance. Nesse suporte textual, Italo Calvino acaba por conceder ao seu leitor uma outra possibilidade de interpretação, fazendo-o perceber fortes marcas biográficas no texto. Como fora dito antes, diante do jogo de Calvino que, brincando com seu leitor, permite duas formas de interpretação, duas leituras, esse artigo irá analisar o romance pelos olhos do conceito de autoficção.

Segundo Lejeune (2003), um texto autobiográfico tem por definição ser uma narrativa em prosa, retrospectiva, de alguém real que fale de sua própria vida e, em particular, de sua personalidade. A escrita de si parte do princípio do ato de contar-se, de narrar-se para um outro sem desviar-se da verdade. Sendo assim, ainda segundo Lejeunne, o que irá diferenciar, efetivamente, um texto ficcional de um texto autobiográfico será exatamente o pacto que se fará entre autor e leitor. É o pacto autobiográfico que confere ao leitor propriedade para ler todos os eventos da narrativa como verdades absolutas. Será através dos suportes textuais, prefácios, prólogos, cartas, entrevistas, que o leitor-modelo terá condições de perceber a verdade em cada um dos atos narrados, inserindo-os, com segurança, no gênero autobiográfico. Todavia, autobiografia e ficção têm cada vez mais se entrelaçado, criando um gênero de interface, de forma a deixar o leitor sem muitas certezas quanto ao que é verdade na ficção ou ao que é ficcional nas verdades contadas.

Um texto autobiográfico parte da premissa de ser uma narrativa escrita em primeira pessoa onde o nome da personagem é idêntico ao do autor e as ações narradas são exatamente iguais as que o autor vivenciou em sua vida real. No entanto, num jogo de revelar e ocultar, existem narrativas ficcionais em primeira pessoa que não conseguem eximir-se da presença dos traços biográficos, revelando uma espécie de ‘mistura’ de gêneros onde o autobiográfico e o ficcional dialogam entre si e não necessariamente se excluem. Esse é o ponto chave da discussão sobre autoficção. Até onde um texto é puramente ficcional ou puramente autobiográfico e, quando esses dois gêneros se fazem presentes na narrativa, como direcionar a leitura de forma a perceber quais são as marcas autobiográficas e quais são as marcas ficcionais.

Textos ficcionais, narrados em primeira pessoa com marcas autobiográficas, oferecem ao leitor, segundo Lejeune, um outro tipo de pacto, o pacto indireto, no qual o autor oferecerá pistas ou indicações que permitam uma leitura de forma a perceber, indiretamente, esses elementos como “fantasmas reveladores do indivíduo” (LEJEUNE apud KLINGER, 2006, p,11). Nesse sentido, Italo Calvino refaz o pacto com seu leitor, propondo, então, o pacto indireto no qual as pistas do prefácio, juntamente com as pistas do texto narrativo irão revelar ao leitor as particularidades da experiência do autor. Nesse processo de ocultar e revelar indícios, Calvino subverte as normas do texto autobiográfico assim como as do texto ficcional, permitindo duas possibilidades de interpretação, já que com a escrita do prefácio, o autor permite ao leitor tanto a leitura isenta de motivos biográficos, como a leitura compreensiva de que muito do que o jovem Calvino, enquanto soldado partigiani, viveu, sentiu e pensou está presente em sua narrativa. Ao unir ficção, fábula e biografia, Calvino termina por destruir a antiga ideia de que uma narrativa só pode abarcar um tipo de gênero.

Determinado a escrever um romance que tratasse do tema mais recorrente no meio literário italiano da época, a guerra, Calvino almejava produzir uma narrativa que mostrasse a realidade dos homens da Resistenza de uma forma diferenciada, traduzindo o universo dos soldados mais suavemente – ao escolher retratar a história do ponto de vista de uma criança – e ao mesmo tempo caricata, quando nos apresenta soldados diferentes dos que costumam ser apresentados nos tão aclamados livros de guerra, mostrando, então, o “outro lado da moeda”, como o próprio autor explicita em seu prefácio:

A mim, essa responsabilidade acabava me levando a sentir o tema como demasiado importante e solene para minhas forças. E então, justamente para não deixar que o tema me subjugasse, decidi que o enfrentaria, sim, mas de esguelha. Tudo devia ser visto pelos olhos de um menino, num ambiente de moleques e vagabundos. Inventei uma história que ficasse à margem da guerra partigiana, de seus heroísmos e sacrifícios, mas que ao mesmo tempo transmitisse suas cores, o gosto áspero, o ritmo… (CALVINO, 2004, p, 12)

Dessa forma, a narrativa de Calvino não obedece nem às principais diretrizes da literatura neorrealista, nem às diretrizes de uma fábula suis generis, muito menos se subordina às condições de um texto autobiográfico. O que se percebe em Il sentiero dei nidi di ragno é que, por ser de foro íntimo e pessoal, Calvino enfrenta uma batalha árdua no momento de escrita e, portanto, resolve fazê-lo de acordo com sua própria regra. Ou seja, desfaz-se da necessidade neorrealista de precisão na representação, no momento em que não nos oferece personagens tais quais a realidade empírica. Os soldados partigiani de Italo Calvino são grotescos, animalizados, caricaturados e estão longe dos conceitos mais comuns do que pode se chamar de herói. Ainda sim, esses anti-heróis são os homens que acolhem Pin e que o ensinam a sobreviver às auguras da vida. É a inocente insolência de Pin que transforma Cugino, que transforma os soldados partigiani. É a doçura e a rebeldia do garoto que inserem a perspectiva fabular na narrativa oferecendo ao leitor momentos de humor e sutileza em meios às explosões e os tiros, como é o caso do trecho em que Pin simula brincar de esconde-esconde em meio a uma fuga da prisão:

Pin pensa de repente em si próprio, pendurado na calha, e nos disparos das sentinelas, e sua frio. São coisas mais assustadoras de lembrar do que de viver; mas perto de Lobo Vermelho1 não se pode ter medo. É uma coisa maravilhosa ficar sentado junto com Lobo Vermelho atrás do reservatório: parece brincadeira de esconde-esconde. (CALVINO, 2004, p, 74)

Sendo assim, Calvino subverte três formas de produção literária no intuito de compartilhar suas vivências. A subversão ao texto autobiográfico deriva-se da não presença de elementos referentes à realidade vivida pelo autor. Não há tradução, imparcial e precisa do que vivera Calvino enquanto jovem. Os traços biográficos refletem-se nos sentimentos, nas ações, nas ideologias presentes na narrativa, ou seja, Calvino escolheu contar a aura de um momento histórico e não apenas relatar ações, como bem se percebe nas falas de Kim, um jovem estudante cheio de ideais que busca por em prática o que aprendera nos livros, mas acaba percebendo que, na realidade, questões como ideais, consciência de classe e dever à pátria não são questões que podem ser facilmente esclarecidas:

Quando discute com os homens quando analisa a situação, Kim é terrivelmente claro, dialético. Mas ao falar com ele, assim, olho no olho, para que ele exponha suas ideias, é de deixar tonto. Ferriera vê as coisas mais simples:

– Bom, vamos lhes dar esse sentido, vamos enquadrá-los um pouco como eu digo.
Kim sopra nos bigodes:
– Isso não é um exército, veja, para poder dizer a eles: este é o dever. Não se pode falar de dever aqui, não se pode falar de ideais: pátria, liberdade, comunismo. Nem querem ouvir falar de ideais, ideais qualquer um consegue ter, do outro lado também há ideais. Vê o que acontece quando aquele cozinheiro extremista começa com seus sermões? Ralham com ele, batem nele. Não precisam de ideais, de mitos, de vivas para gritar. Aqui se luta e se morre assim, sem gritar vivas. (CALVINO, 2004, p, 138-139)

A experiência universitária, dialética de Kim, o impedia de ver a guerra como ela era, a experiência o fez perceber que há muitos outros motivos para se lutar e que nem todos estão, necessariamente, ligados a ideais políticos. Essa inexperiência e posterior revelação de Kim é um sentimento compartilhado pelo jovem Calvino quando em contato com os partigiani.

A presença do elemento fabular é bastante comum nas narrativas de Italo Calvino, tornando, inclusive, o escritor conhecido por sua estética fantástica. A presença desses elementos em A trilha dos ninhos de aranha se torna mais evidente por conta da temática de guerra da narrativa onde os momentos de inocência e brincadeiras de Pin se destacam por sua condição de absurdo e, ao mesmo tempo, de alívio, já que, por mais insensatas que pareçam as brincadeiras do garoto em meio à guerra, são esses momentos que permitem ao leitor aliviar-se por perceber que a infância ainda não foi perdida. Nota-se essa condição em um trecho da obra onde Pin toma como brincadeira – por não entender, certamente – os vagões que levavam os judeus aos campos de concentração: “Claro que eles [os partigiani] enchem Pin de admiração mais do que todos os outros homens: sabem histórias de caminhões cheios de gente esmigalhada e histórias de espiões que morrem nus dentro de valas na terra.” (CALVINO, 2004, p, 99).

Para Calvino, a vida é uma fábula desencantada, e é seguindo esse pensamento, que o autor escolhe narrar uma realidade permeada por elementos fabulares, “justamente pela perspectiva do olhar do menino solitário perdido no bosque.” (FRITOLI, 2008, p, 12), conferindo ao leitor a oportunidade de “ver a própria tragédia da guerra como fábula, descobrir-lhe aspectos menos negativos, mesmo que não duradouros, mas que podem torná-la mais suportável.” (FRITOLI, 2008, p, 12). Ao unir realismo e fabulação, Calvino traz a figura da criança que imagina e brinca em meio a campos minados, traz um Pin que tem um lugar secreto, que se mete em encrencas em bosques escuros, que encontra homens de mãos macias, as mãos de pão de Cugino; e ao inserir esses elementos das narrativas costumeiramente infantis, como o próprio Pin comenta, “Esses são lugares mágicos onde a cada vez tem lugar um feitiço. E também a pistola é mágica, é como uma vara de condão. E também o Primo2 é um grande mago, com a metralhadora e o gorrinho de lã […]” (CALVINO, 2004, p, 182) o autor termina por suavizar as brutalidades vividas pelos italianos no pós-guerra.

No entanto, para além da tradução de uma época e de um sentimento, no desejo de recontar um todo, uma comunidade, Calvino, tenta a todo o custo não incluir em sua narrativa nada que se refira a sua vivência particular enquanto partigiani. O autor, inclusive, denuncia em seu prefácio que seu intuito primeiro era escrever um livro em primeira pessoa, porém, quanto mais próximo ele tentava ficar das histórias narradas, menos conseguia contá-las. Sendo assim, decidiu-se por escrever algo impessoal, retratando apenas uma comunidade:

Durante meses, depois do fim da guerra, tinha tentado contar a experiência partigiana em primeira pessoa, ou com um protagonista parecido comigo. Escrevi alguns contos que publiquei, outros que joguei no cesto do lixo. Movia-me pouco à vontade, nunca conseguia abrandar totalmente as vibrações sentimentais e moralistas; sempre surgia alguma desafinação; minha história pessoal parecia-me humilde, mesquinha; eu era cheio de complexos, de inibições, diante de tudo o que me era mais caro. (CALVINO, 2004, p, 19)

Para o escritor italiano, narrar sobre a experiência partigiana só começara a fluir quando este se afastou da história que desejava contar. Foi em um processo de despersonalização que Calvino, ao escrever sobre Pin, Kim e todos os soldados do destacamento de Dritto, acabou por enganar-se e escrever muito sobre si, em um processo no qual quanto mais escrevia sobre o outro, mais falava de si. A imaturidade e as experiências vividas por Pin, as ideologias baseadas em livros e teses defendidas por Kim são traduções dos sentimentos, das vivências e ideologias defendidas pelo jovem Calvino que decide abandonar os livros e entrar na luta armada. É negando-se no texto que Calvino permite-se por muito de sua idiossincrasia em cada uma de suas personagens. Ao falar de Fernando Pessoa, Leyla Perrone-Moisés consegue traduzir esse fenômeno na narrativa de Calvino: “a negatividade instaura um ‘pensamento impessoal’, em que o sujeito não se perde, mas se multiplica em significância.” (PERRONE-MOISÉS, 2001, p, 130).

Através das declarações dadas em seu prefácio, Calvino confessa sua semelhança com o garoto do beco comprido, percebendo que a imaturidade de Pin espelha a sua própria imaturidade, jovem burguês que teorizava sobre revolução, mas que na prática não fazia alguma diferença em seu momento histórico. Ao adentrar em um destacamento da Resistenza, Calvino se depara com outra realidade que o faz perceber outros universos, repensar sua intelectualidade em confronto com a realidade dos combatentes. É na percepção de que os guerrilheiros, homens comuns e marginalizados estão distante das representações comuns de heróis de guerra – ainda que não deixem de ser heróis, dentro da pobreza e da marginalização que a vida e a guerra os colocaram – que o jovem Calvino vai começar a ampliar seu universo e, em um desabafo, perceber que há mais de si em Pin do que ele imagina:

A identificação entre mim e o protagonista tornara-se algo mais complexo. A relação entre a personagem do menino Pin e a guerra partigiana correspondia simbolicamente à relação que eu percebera ter tido com a mesma guerra partigiana. A inferioridade de Pin como criança diante do mundo incompreensível dos adultos corresponde à que eu sentia na mesma situação, como burguês. E o descaramento de Pin, em virtude de sua tão gabada proveniência do mundo do crime, que o faz sentir-se cúmplice e quase superior a todo ‘fora-da-lei’, corresponde ao jeito ‘intelectual’ de estar à altura da situação, de nunca se espantar, de se defender das emoções… Assim, dada essa chave de transposições – mas foi só uma chave a posteriori, que fique bem claro, a qual me serviu mais tarde para explicar a mim mesmo o que eu havia escrito -, a história em que meu ponto de vista pessoal era banido voltava a ser a minha história… (CALVINO, 2004, p, 20)

Dada a chave de leitura oferecida pelo autor, as semelhanças entre Calvino e as personagens Pin e Kim ficam evidentes ao longo da narrativa, tendo em vista que Pin é um garoto arredio e inocente, que desconhece da realidade da guerra; e Kim é um jovem estudante a par de todas as teorias políticas e históricas e um combatente que está na luta armada a fim de defender seus ideais. A inocência de Pin é mesclada com o disparate e a insolência da resposta do garoto às surpresas da vida e às ações dos adultos, o garoto se sente à parte dos dois universos, não pertencendo nem ao mundo das crianças nem ao mundo dos adultos: “mas Pin é um garoto que não sabe brincar, que não sabe participar das brincadeiras, nem dos adultos, nem dos garotos.” (CALVINO, 2004, p, 48). Essa condição avessa, esse sentimento de não pertencer e não compreender a realidade, como fora citado mais acima, é pertinente à experiência de Italo Calvino como um jovem burguês que decide entrar na guerra. A inexperiência de Calvino o faz chocar-se e refazer-se, diariamente, modificando conceitos, revendo posições e amadurecendo. Esse amadurecimento ‘forçado’ é comum ao garoto Pin que – ainda que contra a sua vontade – usurpa-se de sua infância para viver a vida de acordo com as situações que vão aparecendo.

Propondo um diálogo entre suas personagens e sua própria vivência, através da junção e combinação entre os modos de ficção neorrealista italiana, a fábula e a autobiografia, Calvino foge dos moldes de cada um destes modelos, criando um gênero de interface. Ao desnudar a realidade da guerra na Itália, o autor lança mão de um de seus mais comuns aspectos, a fabulação, e, com o olhar do moleque do beco, arteiro, abranda as crueldades deste momento histórico. Contanto, no seu processo de escrita, ao deflagrar tal realidade, acaba por representar-se através de seus personagens, onde cada um destes traz alguma experiência, sensação, frustração, ideologia ou aprendizagem do jovem Calvino. Despersonalizando-se, Italo Calvino acaba traduzindo aquilo que lhe há de mais pessoal referente às suas vivências, e pondo em prática a mais famosa frase de Rimbaud: “Je est une autre.”.

Considerações finais

“O primeiro livro se torna um diafragma entre você e a experiência.” (CALVINO, 2004, p, 24). Nesse sentimento, Calvino traduz o seu primeiro romance Il sentiero dei nidi di ragno. Com o princípio primeiro de apenas contar uma história de guerra, o autor italiano transgride o comum dos textos de guerra e, ao invés de mostrar o herói clássico e consciente, mostra o soldado rabugento, o ladrão, o preguiçoso, o marginalizado, reconstruindo a ideia de herói ao apresentar guerrilheiros sem consciência de classe que, no entanto, lutam bravamente por justiça social.

Sem deixar totalmente de lado o projeto estético do neorrealismo, Calvino oferece uma narrativa crua e impiedosa. A inocência de Pin é uma afronta à realidade da guerra e esta é um desrespeito à condição de criança do garoto que vê brincadeira em tudo, até em ter uma ‘pê-trinta-e-oito’. Resolve ainda transgredir esteticamente e insere elementos comuns às fabulas, em Il sentiero dei nidi di ragno os bosques são encantados, os guerrilheiros são magos e as armas, varinhas de condão. O autor decide-se, ainda, por contar toda uma história sob o olhar de uma criança que se encontra, em muitas partes do texto, perdida nos bosques da Itália. Pin, em um misto de realidade e magia, é um garoto arredio, que nos encanta com suas peraltices e respostas insolentes.

É este universo que Italo Calvino constrói para seu leitor. Um universo que, com o surgimento do prefácio, escrito pelo autor em 1964, permite ao leitor entrar no mundo das memórias de um jovem italiano, estudante de Letras, que resolve entrar na luta armada contra o nazi-fascismo. Construindo uma narrativa ficcional que dialoga constantemente com o gênero autobiográfico, o prefácio escrito por Italo Calvino oferece suportes que autoriza adentrar o universo da narrativa e perceber os sentimentos mais íntimos, as vivências e impressões mais pessoais do escritor.

A consequência da construção desse romance e do tipo de narrativa que Italo Calvino constrói é uma discussão sobre os gêneros que dialogam entre si. Através da coexistência pacífica entre o ficcional e o autobiográfico, Italo Calvino desnuda em sua narrativa uma realidade que poucas pessoas conhecem em termos práticos. Ao caricaturar seus companheiros de destacamento, Calvino distorce a falsa ideia do herói antifascista, mostrando homens comuns, marginalizados e, – contra a natureza inicial – heróis, homens de coragem, numa espécie de ode às avessas a esses guerrilheiros. Permite ainda, ao leitor, conhecer as fraquezas, dúvidas e ideologias de um jovem estudante que optou viver seus discursos na prática. Essa visão explicitada na narrativa só é possível graças à união entre o texto ficcional e a experiência pessoal de Italo Calvino que, como o próprio diz: “talvez tivesse me servido para escrever meu último livro e me bastou apenas para escrever o primeiro.” (CALVINO, 2004, p, 25)

Referências

CALVINO, Italo. A trilha dos ninhos de aranha. São Paulo: Cia das Letras, 2004.
CALVINO, Italo. Il Sentiero dei nidi di ragno. Milano: Mondadori, 2011
______. O cavaleiro inexistente. São Paulo: Cia das Letras, 2005.
______. Il Cavaliere inesistente. Oscar Mondadori: Milano, 2002.
______. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Cia das Letras, 1990.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Cia das Letras, 1999.
FIGUEIREDO, Eurídice. Dany Laferrière: autobiografia, ficção ou autoficção. Interfaces Brasil / Canadá, Rio Grande do Sul, n. 7, p. 55-70, 2008. < http://www.revistabecan.com.br/&gt; Acesso em: 15 de abril de 2011.
FRITOLI, Luiz Ernani. O desencantamento da história: literatura e resistência no primeiro romance de Calvino. Línguas e Letras, Paraná, v. I, n. I, p. 9-21, 2008.http://e-revista.unioeste.br/index.php/linguaseletras/article/view/1302/1056 Acesso em: 28 de abril de 2011.
ISER, Wolfgang. Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In: LIMA, Luís Costa [org]. Teoria da Literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2002
KINGLER, Diana. Escritas de si, escrita do outro: autoficção e etnografia na literatura latino-americana contemporânea. Tese de doutorado apresentada ao Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2006.
LEJEUNE, Philippe. Definir autobiografia. In: MORÃO, Paula. [org.] Autobiografia: auto-representação. Ed. Colibri: Lisboa, 2003.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. O vácuo-pessoa. In: Aquém do eu, além do outro. Martins Fontes: São Paulo, 2001.
ROCHA, Clara. Máscaras de Narciso: estudos sobre literatura autobiográfica em Portugal. Almedina: Coimbra, 1992.

 

Notas deste artigo
1. O nome da personagem no original, em italiano, é Lupo Rosso.
2. O nome da personagem no original, em italiano é Cugino e foi traduzido para Primo em português.

					
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Um comentário sobre “Capítulo 10 – Je est une autre: Notas sobre autoficção em Il sentiero dei nidi di ragno. Por Carla Araújo Lima da Silva

  1. Projeto: Crítica literária – versão β
    Parecer relativo ao ensaio Je est une autre: Notas sobre autoficção em Il sentiero dei nidi di ragno, de Carla Araújo.
    Parecerista: Cláudio Eufrausino.

    Na página 2, a autora faz referência à presença da fabulação no texto de Calvino. No decorrer do ensaio, discute com precisão como a narrativa do escritor abriga os aparentemente inconciliáveis neorrealismo e fábula.

    Acredito, porém, ser necessário mencionar alguns elementos que exemplifiquem o caráter fabular no texto de Calvino e, se possível, falar sucintamente sobre a diferença entre fábula e fabulação (você traz isso nas considerações finais, mas seria legal introduzir esta questão no início do texto). Não é preciso escrever muito. Basta apontar brevemente algumas diferenças e semelhanças entre fabulação e fábula.

    Muito interessante a reflexão (na p. 4) sobre como o texto ficcional consente a presença de elementos e sentimentos biográficos. Esta discussão pode ser retomada com maior profundidade em estudos futuros.

    Outra discussão que pode ser esmiuçada (inclusive no doutorado) é sobre a noção de “gênero de interface” e a reflexão sobre como a “verdade” se faz presente na ficção e o ficcional nas verdades (p. 5).

    Observe o seguinte trecho “No entanto, num jogo de revelar e ocultar…” (p. 5, segundo parágrafo). Recomenda-se que a autora fale sobre o que é revelado e ocultado no jogo ficcional e descreva se o material que é revelado e ocultado diz respeito a informações biográficas ou a elementos ficcionais ou ainda a elementos fabulares, ou ainda aos três tipos de elemento. Vale a pena um parágrafo que explicite este material que é passível de revelação e de ocultação.

    A autora pode explorar, em outros estudos, a questão de como o caráter autoficcional se expressa na negatividade e na afirmação da presença do autor. Pode investigar como a despersonalização contribui ora para o ficcional ora para o autobiográfico.

    Na página 11, a autora menciona como a inocência do personagem principal afronta a realidade da guerra. Em momento anterior, a autora menciona que a inocência do personagem está relacionada ao caráter fabular. Mas, como se sabe, as fábulas por trás de seu véu de inocência trazem traços de profundo terror (suavizados ao extremos nas versões de Disney). Bem, fica aqui uma pequena provocação para se pensar em futuras reflexões. Mas, de toda forma, recomenda-se que a autora escreva um pequeno parágrafo, falando sobre o porquê de ela achar que a inocência está associada à fábula (ou fabulação).

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