Capítulo 1 – Metáforas do raro: aproximações de um estatuto semiótico para a raridade. Por Cláudio Clécio Vidal Eufrausino

Cláudio Clécio Vidal Eufrausino

Metáforas do raro: aproximações de um estatuto semiótico para a raridade

A Gisele, minha irmã
A Alfredo, que não se intimida diante do inefável
A Walter Benjamin
A quem me é raro, com sua aura de esmeraldas

Pois onde estiver o teu tesouro, ali estará também o teu coração.
Mateus, 6:21

Contavam brilhantes fábulas nos dias do passado,Quando a Razão pedia emprestada asas à Imaginação.
T. K. Harvey

I

Antes que o sonho de Ícaro, isto é, a metáfora, tome conta da escrita deste texto, esfumaçando os contornos da objetividade, cabem algumas informações que sirvam como diretrizes para a leitura.

A opção por ancorar o argumento deste trabalho na ideia de “estatuto semiótico” deve-se ao fato de que a reflexão sobre a raridade na escrita literária não pode ser desvinculada de uma reflexão sobre a raridade enquanto máscara cabível nas diferentes feições que a cultura pode assumir.  Tentaremos observar a raridade como um conjunto de pressupostos aplicáveis ao comportamento humano metaforicamente esculpido na ficção.

De certo, definir a ficção seria tirar da humanidade o gosto de optar por “enxergar”, por detrás da folha de parreira que tem velado nossa nudez, menos a vergonha e mais o mistério. Mas, mesmo assim, é possível sondar conceitualmente a ficção, como faz Iser (2002). Ele a concebe como um ato complexo inaugurado pela nossa incapacidade de apreender o todo do sistema-realidade e, apesar disso, desejarmos ampliá-la, considerando-a triste e pouca.

Para conseguir isso, selecionamos elementos do sistema-realidade e os recombinamos. Neste gesto, ora o sistema-realidade, ora a ficção dele derivada, são colocados entre parênteses, havendo um jogo entre ocultamento e revelação, no qual a realidade se transfigura, ou seja, figura de forma compartilhada em dois sistemas. Tal jogo torna-se uma espécie de lupa com a qual a realidade é revisitada por suas lacunas transfiguradas e amplia-se.

O objetivo seguinte, neste ensaio, é projetar sobre a própria escrita literária a noção de raro proveniente do diálogo com a ficção. Como se pode ver, este esforço só é possível se o entendermos como tentativa de formular um estatuto semiótico para a raridade. Semiótico por estar, como prevê Umberto Eco (1970), relacionado ao transplante de uma presença para o terreno de uma ausência.  A ideia é compreender como, sob determinados aspectos, metáforas presentes em narrativas literárias, podem ser utilizadas como veículo de uma outra coisa que, no caso desta reflexão, é a noção de raridade.

Isto significa que o percurso teórico a ser seguido implica a construção de uma convenção semiótica que institua uma relação entre a noção de raridade e o universo metafórico de determinadas narrativas literárias, cuja escolha se dá meramente com base no critério da oportunidade.

II

A noção de raro não deixa de dialogar com os rituais de exorcismo. Neste caso, o demônio a ser exorcizado é uma parte do princípio da conservação da matéria, de Lavoisier: “Dans la nature rien ne se crée, rien ne se perd (…)”. O raro é a ficção que faz nossa razão chegar o mais próximo da inexistência ou da existência total. Mas, como bem postula Lavoisier, nada pode existir ou inexistir por completo, visto que a transformação seria a razão do ser. A existência ou a inexistência em plenitude são duas faces de um mesmo númeno ou daquilo que nossa razão não consegue narrar.

A raridade se [esconde (revela)] encontra num limiar, algo imageticamente próximo da tensão superficial da água. Está num existir que beira o inexistir, sendo a recíproca verdadeira.

O autor ideal, em termos de raridade, seria aquele que não existe, mas que pode ser lido. O não existir significaria estar livre do ciclo das transformações que, em matéria discursiva, pode ser associado ao circuito da transtextualidade, conforme indefinida por Genette (1982) da seguinte forma: “Um texto pode sempre ler um outro, e assim por diante, até o fim dos textos”.

Porém, a relação pode ser trabalhada na direção inversa, associada a um existir que expressaria a plenitude por meio da capacidade de presentificar o apocalipse dos (trans)textos. Nesta perspectiva, o autor raro ideal traria a potência de religar o alfa e o ômega dos textos, separados pelo espelho confuso e vital das transtextualidades.

Como não se pode expressar, em termos racionais, o existir e o inexistir plenos, verifica-se que a noção de raridade é uma aproximação que se tenta remediar pela hipérbole, mas é incuravelmente ferida pelo eufemismo.

Disto provém a sensação de raridade construída na relação entre leitor e autor. Certamente, estas duas instâncias são filtradas pelo já descrito circuito iseriano dos atos de fingir, que esculpem o autor e o leitor ideais: espaços de transfiguração formados a partir de indícios do autor e do leitor empíricos.

Com base nesta ideia, pode-se dizer que um livro soa raro quando é assombrado pelo fantasma de um leitor ideal parente de um leitor inexistente. Este tipo de leitor é imageticamente representável pela figura mítica de Pandora, que abriu a caixa contendo todos os males (ou todos os bens).

Pandora é uma representação sígnica de um leitor ideal situado entre o não-leitor que o interdito instaura e o leitor que desafia este interdito. Concebido como sendo legível por este autor ideal, o livro adquire a aura de raridade. Como se sabe, depois que Pandora abre a caixa, todos os males (ou todos os bens) escapam, o que atesta a precariedade do estatuto do raro, que foge quanto mais se tenta capturá-lo.

Quando todos os bens (ou males) fogem da caixa de Pandora, resta lá somente a esperança. Isto é algo sintomático, visto que, a despeito de quem lê ou do que é lido, a raridade traz um índice de esperança (que não deixa de ser um índice de desespero).

O apóstolo Paulo dirá no capítulo onze da carta aos Hebreus que a esperança tem como fundamento a fé, definida por ele como a certeza a respeito do que não se vê. Ora, a raridade flerta com a esperança, por estar situada numa atmosfera de tensão e suspense1. O efeito discursivo de raridade está vinculado ao olhar de desespero ou de esperança que a narrativa nos lança de seus pontos cegos situados num fundo aparentemente perdido do espelho fundado na relação entre autor e leitor.

Neste sentido, a raridade não é algo diferente do amor desesperado ou esperançoso. Por mais que o ser amado desdiga que o ama, o desesperado (esperançoso) lê nas entrelinhas do espelho a esperança de uma mensagem que dirá o que ele deseja ouvir. Por esta razão, cada palavra ou gesto do ser amado é investido do estatuto da raridade.

O contrário também acontecerá. Se algo é interpretável como sendo signo de total repúdio, o alarme do princípio de Lavoisier é ativado e nas entrelinhas do espelho narrativo começa a soar a melodia da raridade, uma reação discursiva à tentativa humana de romper a barreira imagético-acústica do númeno, barreira cuja expressão mais familiar é a do amor desesperado ou do repúdio desesperado.

III

Na manhã seguinte, Vênus convocou a presença de Psiquê, e disse-lhe: “Olha para aquele bosque que se estende ao longo da margem do rio. Ali encontrarás ovelhas pastando sem pastor. Suas carcaças estão cobertas de lã reluzente como o ouro. Traga-me amostras daquela lã preciosa, retirada de cada uma das ovelhas”.
O livro da mitologia – Thomas Bulfinch

Quem de vós que tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu até encontrá-la?
Lucas, 15:4

A beleza de Afrodite é devedora da divindade. A beleza de Psiquê é devedora da raridade. Isto porque em Psiquê a beleza não mora numa certeza, mas sim numa impropriedade. É impróprio (não impossível) aos humanos compartilhar do estatuto da divindade. A própria Psiquê reconhece a impropriedade de sua beleza e considera o pior destino a ela reservado como algo melhor do que usufruir dos benefícios de tal impropriedade:

Meus queridos pais, por que lamentais minha sorte? Teria sido melhor que tivésseis lamentado quando o povo fazia chover sobre mim honrarias impróprias e, em uníssono, chamavam-me Vênus. Agora percebo que sou vítima desse nome. Mas submeto-me. Levai-me até a montanha, onde o meu triste destino me espera” (Bulfinch, 2006,  p. 116).

A raridade é comumente associada a um privilégio, mas, na verdade, habita uma zona de desconforto e angústia, representada pelo lamento de Psiquê ao se sentir vítima dos louvores que a exaltam.

O estatuto do raro está ligado ao desafio de se cultivar a imortalidade na mortalidade, independentemente dos juízos de valor que qualquer idealismo possa ajuntar a estes dois termos.  Embora, seja possível dizer que a raridade aparece na tentativa do idealismo de se alojar no contra-idealismo.  Se traduzirmos o idealismo pelo nome de perfeição, teremos que a raridade se exibe nos artifícios que executa para ajustar expectativas de perfeição ao horizonte de falibilidade da obra.

A tradução do idealismo, tomando-se como dicionário horizontes de falibilidade: talvez isso possa ser algo que se aproxime da noção de raro. Não deixa de ser possível formular a noção de raridade em outros termos, como, por exemplo, a tradução da esperança, tomando-se como referência horizontes de expectativa associados à frustração.

Psiquê se vê às voltas com este desafio tradutório. A presença velada de Cupido faz o horizonte de expectativas de Psiquê oscilar entre a esperança e a frustração. Por não saber se quem ela ama é o monstro previsto pelo oráculo ou o ser radiante forjado por sua imaginação, Psiquê ergue um labirinto de raridade entre ela e seu objeto de amor, labirinto construído nos pilares da curiosidade e da angústia; com a frente voltada para a frustração e as costas voltadas para a esperança, afinal a raridade de uma joia está calçada num pacto simbólico em que se deixa a esperança a sussurrar seu lamento em nossas nucas e se tenta causar inveja à frustração, que executa um balé diante de nós.

É certo, contudo, que a frustração e a esperança podem ser esposas do futuro, mas não são capazes de determiná-lo. E é certo também que nos raros e decisivos momentos em que a esperança vai a nossa frente, a raridade – as joias e seus quilates – deixam o palco envergonhados.

A raridade não deixa de estar relacionada a uma tentativa do ser humano de se redimir diante do arquétipo da divindade, ou, em outros termos, da origem sem origem. Psiquê tentou redimir-se pelo fato de ter tido sua beleza exaltada em detrimento da beleza de Afrodite. Para alcançar a remissão, Psiquê sujeitou-se a provas árduas impostas pela deusa.

Numa dessas provas, o desafio era coletar a lã dourada de ovelhas que, sem pastor, vagavam às margens de um rio. A raridade da lã não estava na lã em si mesma, mas no sacrifício que a distância impõe para se chegar à meta. A lã é rara porque uma vida inteira poderia ser insuficiente para a meta ser alcançada. Isto pode ser entendido nos contornos de um sentimentalismo folhetinesco, mas também pode ser entendido sob a óptica do pessimismo crítico. Neste sentido, o estatuto da raridade aproxima-se do estatuto do monumento. E, se lembrarmos da máxima de Walter Benjamin (1996), os monumentos são invisivelmente alicerçados no sacrifício de vidas humanas.

Como se vê, o ciclo de morte da raridade, mesmo numa narrativa mítica, dá sinais do espírito do Capitalismo, visto que a raridade é fruto do sacrifício alheio apropriado e ostentado pelos deuses.

O deus das águas do rio ajudou Psiquê a cumprir a tarefa imposta por Afrodite. Mas, comumente, a raridade padece de crônica solidão, como a da rosa teimosa colhida por uma das santas Teresas num jardim o qual estava tomado de conta por um rigoroso inverno. A noção de raridade expõe as duas faces do milagre: o milagre que dá mostras de que Deus nos faz companhia e o milagre que ressalta o quão estamos lançados a nossa própria solidão, sendo os deuses, como previa Epicuro, indiferentes a nós.

O raro, por meio dos quilates e da monumentalidade, somente encobre seu jogo de espelhos. A raridade constrói um espelho que a desmente para, das cinzas especulares, erguer um espelho que a reafirme: “Mirror Mirror on the Wall, Who Is the Fairest of Them All?”.

Pela parcela humana de nossa psiquê a raridade é reconhecida não como o sentir-se divino. É, antes, o ato de fingir uma proximidade – que já se sabe frustrada – com a divindade. Neste sentido a raridade é um furto. Psiquê quis roubar um pouco da beleza guardada na caixa que a deusa do inferno havia enviado de presente para Afrodite. Ela queria se tornar bela, não para ser como uma deusa, mas para se fazer a si mesma rara aos olhos de seu amado e vencer a rejeição que ele lhe impunha.

Pela centelha divina de nossa psiquê a raridade é reconhecida como ameaça. Ressentida e despeitada, a divindade em nós procura fazer da conquista do raro uma tarefa a ser paga com o preço do sacrifício. Ou, talvez, não seja a despeita, mas a misericórdia quem melhor descreva a presença da divindade em nós. Neste caso, o apelo da raridade dá mostras da misericórdia divina que tenta nos salvar da nossa tendência de prestar adoração aos altares de nossa própria mesquinhez.

IV

Por que insistes em me ver?, perguntava ele. “Duvidas do meu amor?” Tem algum desejo que não lhe foi atendido? Se me visses, poderias temer-me, ou talvez me adorar, mas tudo que te peço é que me ames. Prefiro que me ames como a um igual a me adorares como um deus.
Cupido e Psiquê – Por Thomas Bulfinch

De Foucault (1984), temos que um dos significados da heterotopia é o de ser um lugar destinado a depositar o que ameaça a utopia que, por sua vez, é um espaço que não tem lugar na realidade. Para que a heterotopia “faça sentido”, é necessário que, por força da ignorância, do fanatismo, da tirania ou afins – a uma utopia seja atribuído o caráter de projeto de urgência, sendo as ameaças a ela encaradas como passíveis do isolamento, quando não da aniquilação. Deste raciocínio, é possível derivar a conclusão de que a heterotopia pauta suas justificativas diante do espelho de uma utopia distorcida, representada pela transposição de um lugar ideal (um não-lugar) para o solo precário e contraditório da realidade movediça. Em todo caso, a heterotopia é um espaço de exceção, criado para refugiar a tensão (o fascínio) que o sagrado e o proibido exercem sobre a vida social.

Sendo a inexistência condição das utopias, elas não podem ser tomadas como sinônimo de raridade, visto que a raridade opera na fronteira entre o existir e o inexistir.  A raridade também não pode ser tomada por sinônimo de heterotopia, pois a heterotopia, mesmo representando um lugar que se afasta dos espaços culturais ordinários, é por demais concreta para atender ao pressuposto da tensão entre existência e inexistência, que esta reflexão procura atribuir ao raro.

A raridade é, na verdade, uma operação simbólica que expõe o espelho fraturado por meio do qual utopia e heterotopia estão relacionados.  A raridade não é um lugar forjado para abrigar a existência excepcional (o que no caso seria a heterotopia). Tampouco é simplesmente um não-lugar (utopia). O espaço simbólico do raro é antes um lugar excepcional forjado para abrigar o inexistente.  Uma joia é considerada rara por ser uma exceção. Mas, não somente por isso. A exceção precisa se olhar no espelho e se enxergar como não existente para revestir-se do estatuto de raridade.  No exemplo da joia, o ciclo da raridade se perfaz quando sobre ela são projetadas as redomas, a procuração simbólica da não-existência. Do mesmo modo que os anjos com espadas de fogo são a procuração simbólica da fronteira que separa nossa existência precária da existência utópica do Jardim do Éden.

V

Aluísio Dias escreveu um livro propondo reconstituir a língua primordial, que, antes da confusão de Babel, teria sido igualmente entendida e falada por todos os povos. O título do livro busca antecipar a tese que Dias pretende defender. A Língua Luz A (1998) é um título que joga com duas disposições epistemológicas ou duas modalidades de conhecimento da linguagem: a clássica e a pré-clássica.

Na atmosfera pré-clássica, o sentido é tecido numa relação em que linguagem e natureza se interpenetram e as próprias palavras encontram sua solução significativa num fluxo sincrético, não sendo estranho o movimento de rever e acrescentar acepções a um léxico com base em aproximações sonoras. Antes da gramática de Port-Royal, não seria um abuso, como observa Foucault (1999), identificar na palavra mágoa uma via reveladora do parentesco entre maldade e água.

Na atmosfera clássica, as palavras se tornam cenário de uma relação privada entre o pensamento e a representação. O sentido, nesse caso, bane os sincretismos em favor de um amor devotado e platônico ao ideal da lógica.

Por afinidades sonoras entre as palavras, o título A Língua Luz A oferece-se para ser lido como A língua lusa. Isso porque Aluísio Dias propõe que a língua lusitana ou o Português é a que mais se aproxima da língua primordial. Nesta perspectiva, o fato de o Português derivar do Latim seria resultado de uma ilusão decorrente do esquecimento da língua primordial. O surgimento histórico da língua portuguesa daria mostras de que estaríamos rememorando tal linguagem primordial.

Ao longo do livro, o autor, jogando com o conflito entre as disposições epistemológicas clássica e pré-clássica, procura demonstrar como no Português há reflexos de diferentes línguas e como o Português é o melhor caminho para se chegar à língua primordial. Neste percurso, Dias despe-se dos pressupostos da Filologia e da concepção de Saussure (2006) de que o signo é arbitrário. Heráclito e a mudança são silenciados e retoma-se o pensamento de Parmênides, procurando-se demonstrar que as diferenças entre os idiomas são ilusões sistematizadas que encobrem o fundamento linguístico segundo o qual todas as línguas se contêm reciprocamente.

A ideia é a de que a linguagem não se resolve no pensamento nem no papel, atravessando e sendo atravessada pelo mundo, que também não se resolve em “si mesmo”. Este é, provavelmente, um dos motivos pelos quais o livro de Aluísio Dias contém um furo (fisicamente falando) que o atravessa em toda a sua extensão, fazendo-o se comportar como um tipo de fita de Moebius, onde exterioridade e interioridade se confundem.

Do diálogo com esse livro, é possível derivar um relacionamento entre a noção de raridade e a noção de tradução. O efeito discursivo de raridade não está no fato de a obra vender uma via de retorno às origens, mas sim na tentativa de estabelecer um ponto de intercâmbio, de fluxo bidirecional, por meio do qual se possa transitar entre a origem perdida e o presente inescapável. Este fluxo bidirecional não deixa de ser um movimento de tradução.

A origem oferecida pela obra que se pretende rara não é um marco zero, mas aquele tipo de origem ao qual se refere Walter Benjamin, retomado pela filósofa Kátia Muricy (1998): uma origem que se alicerça num redemoinho, gerado pela tensão entre o passado e o futuro. É neste ponto que a intertextualidade avista, numa só mirada no espelho da história, o esplendor de suas ruínas e o terror de suas glórias.

A raridade busca reproduzir o paradoxo-ideal que, conforme o relato de São Pedro, aconteceu na ocasião conhecida como Pentencostes. Neste momento, os apóstolos, Maria e uma grande quantidade de estrangeiros de diferentes procedências estavam reunidos quando sobre eles pousou o Espírito Santo em forma de línguas de fogo. E, então, todos puderam se compreender a despeito de cada um falar em seu próprio idioma. Este evento é a expressão do anseio que o passado tem de, em seu idioma, fazer-se compreensível pelo futuro e vice-versa. O que não deixa de ser um anseio do Outro de, em sua (im)própria linguagem, fazer-se compreensível pelo Mesmo.

VI

(…) trabalha com “estilhaços brilhantes de pensamento” que ele arranca do passado e agrupa em torno de si. Como o pescador de pérolas que vai ao fundo do mar, não para extraí-la e levá-la à luz do dia, mas para arrancar das profundezas o rico e o estranho, pérolas e corais, e os carregar, como fragmentos, à superfície do dia, ele mergulha na profundidade do passado, não para reanimá-lo tal qual o foi e contribuir ao renovamento das épocas mortas. O que guia esse pensar é a convicção de que, se é bem verdade que a vivacidade sucumbe aos estragos do tempo, o processo de decomposição é simultaneamente processo de cristalização; que no abrigo do mar — elemento em si não histórico no qual deve recair tudo o que na história veio e se tornou — nascem novas formas e configurações cristalizadas que, tornadas invulneráveis aos elementos, sobrevivem e esperam somente o pescador de pérolas que as levará ao dia: como “estilhaços brilhantes de pensamento” ou, também, como imortais Urphänomene [fenômenos originários].
Hanna Arendt

A epígrafe que abre esta seção é um depoimento de Hanna Arendt sobre seu amigo Walter Benjamin, mas também é um depoimento sobre a raridade e como ela está relacionada ao esforço semiótico de libertar o tempo de suas prisões, isto é, do passado, do presente e do futuro ou, em termos míticos, da fome de Cronos.

A imagem do pescador de pérolas é nitidamente aparentada à parábola desenvolvida por Cristo, no evangelho de Mateus: trata-se de uma alegoria referente ao negociante de pérolas preciosas que, ao encontrar uma pérola de grande valor, vende todos os bens e volta para comprar a pérola.

O encontro com a raridade pressupõe um desencontro com tudo que se possui e o esforço de voltar, de reencontrar o raro. Esta volta, por sua vez, vem carregada do risco de ao se chegar a pérola já ter sido vendida. O raro também envolve um risco a posteriori, pois concentra valor, mas é cercado pelo nada. Aquele que tem o raro nas mãos é um despossuído, que optou por concentrar o valor num punctum: o lugar em que desespero e esperança conspiram para estruturar o desestruturar a relação entre os tempos e a eternidade.

Esta situação de abrir mão do terreno firme da posse e concentrar o valor numa determinada singularidade, por meio da qual se almeja contemplar o infinito, está presente em outras imagens do Novo Testamento, como a do pastor que, para ir atrás de uma única ovelha perdida, larga as outras noventa e nove no aprisco.

As próprias imagens relativas aos milagres de Cristo não deixam de ser expressões da noção de raridade. Os milagres eram, como observa Pablo Richard (1992), dirigidos a pessoas marginalizadas. Ao serem curadas ou libertadas, era-lhes devolvida a dignidade que a sociedade roubara. Mas, além disso, é possível dizer que a pessoa que recebia um milagre também era afetada pela raridade, pois se tornava uma espécie de punctum ou de catalisador da suspensão dos juízos e dos tempos.

Confirma-se a regra da miséria, entendida como aura que cerca a raridade, ao se analisar os elementos coadjuvantes aos milagres. É o que ocorre, por exemplo, com o cego que é curado quando Cristo mistura terra e saliva e lhe esfrega essa mistura nos olhos. Ou ainda o caso de Lázaro que, morto pela lepra, estava enterrado há quatro dias, já se sentindo o fedor do cadáver, quando ocorre o milagre de sua ressurreição.

Ou ainda, quem sabe, o caso da Samaritana, que ofereceu a Cristo água do poço de Jacó e recebeu em contrapartida a proposta de beber de uma água capaz de extinguir a sede para sempre. Beber desta água implicaria deixar todas as outras águas para trás. Paradoxalmente a ausência de sede se mostra um tipo de mergulho no deserto, do qual a raridade parece não ser capaz de prescindir.

VII

O Pequeno Príncipe morava num planeta-asteroide e tinha a companhia rara de uma rosa, trancada por ele, na maior parte do tempo, dentro de uma redoma. É difícil dizer se ele queria preservar sua amada rosa ou a raridade que sua companhia exalava.

Um dia, o Pequeno Príncipe, a bordo de um cometa, visitou a Terra. Antes ou depois disso, encontrou uma raposa que nada deu por ele. Mas, o Príncipe conseguiu cativá-la e tornou-se raro para ela, que passou a cobrar-lhe em troca a eterna responsabilidade.

Ao longe, o Pequeno Príncipe avistava seu planeta-natal e, com saudades, quis regressar. O caminho de volta parecia impossível e raro: rarefeito como a esperança do Pequeno.

Uma Serpente se propôs a ajudar o Pequeno Príncipe, que ansiava pelo reencontro com a raridade e desconhecia o significado da palavra veneno.

Referências

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História (ensaio). In Obras escolhidas I: magia e técnica arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1996.
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. Trad. Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2006.
DIAS, Aluísio. A língua Luz A. São Paulo: Editor A, 1998.
ECO, Umberto. A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva, 1970.
FOUCAULT, Michel. Of Other Spaces. Traduzido para o inglês por Jay Miskowiec. French journal Architecture /Mouvement/ Continuité, 1984.
______. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas.Tradução de Salma Tannus Muchail. 8a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999 (coleção tópicos).
GENETTE, Gérard. Palimpsestes: La littérature au second degré. Paris: Ed. du Seuil,1982.
ISER, Wolfgang. Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In Teoria da Literatura em suas fontes vol. 2/ organizado por Luiz Costa Lima. São Paulo: Civilização Brasileira, 2002.
MURICY, Katia. Alegorias da dialética: imagem e pensamento em Walter Benjamin. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998.
RICHARD, Pablo. O Homem Jesus. São Paulo: Editora Moderna, 1992.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2006.
Notas deste artigo
1. Não seria errado supor que a raridade é uma espécie de subgênero do suspense
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2 comentários sobre “Capítulo 1 – Metáforas do raro: aproximações de um estatuto semiótico para a raridade. Por Cláudio Clécio Vidal Eufrausino

  1. Que beleza de texto! Em uma linguagem escorreita e elegante, Cláudio Eufrausino passeia por representações, conta histórias e desvenda a dialética do raro. Mas atenção: é do leitor o trabalho de levantar o véu e se imiscuir nas vielas do texto, encontrar as pérolas escondidas em cada canto. Cada pérola é um convite à reflexão, à pesquisa, ao conhecimento.
    Simplesmente excelente!

  2. Claudio Eufrausino em suas considerações sobre a semiótica do raro desperta-nos para o inquietante mergulho no universo do (in)existente. O texto levanta questões filosóficas como a possibilidade de “se olhar no espelho e se enxergar como não existente”. O raro, que parece possuir a força do não-lugar, é trançado em redes e oferecido ao leitor em pistas que vão sendo oferecidas pelo caminho.

    As “sensações” de pluralidade sobre o raro a partir do “sistema-realidade” serve de base para as provocações entre o nada e o risco que corremos ao nos depararmos com uma possível não existência ou estancamento da mesma, ou como bem define Eufrausino, entre “o ocultamento e a revelação”.

    Claudio Eufrasino retira do “raro” a seiva bruta do que é possível revelar, mesmo que de soslaio, num instante, o olhar crítico e atento do ensaísta apresenta-nos um mundo idiossincrático cheio de conexões possíveis que nos enche de orgulho.

    Marcos Vidal

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